terça-feira, 23 de julho de 2013

Oi

Olá. Tudo bem? Sumiu ontem. Foi embora enquanto eu dormia e nem se despediu. E agora não quis nem me cumprimentar. Chegou de repente e se instalou tão rápido que nem reparei.
Aceita um chá enquanto me destrói completamente? Ou prefere me degradar enquanto preparo torradas?
Gosto de visitas, mas minha mãe me ensinou que há um limite, e creio que a senhora está ultrapassando ele. Não prefere vir outra hora, dona tristeza? Algum momento que você tenha motivos para aparecer, talvez. Não está me deixando ler. Queria tanto ler em paz. Posso ler meu livro quietinha? Enquanto isso a senhora visita um outro alguém, dona tristeza. Visitar-me toda noite não a cansa? Pois a mim sim.


Esse é antiguinho (segundo o iPod, 22/12/12) e eu nem lembrava que existia. Mas o achei perdido por aí e resolvi postar porque achei até que fofo.

quinta-feira, 18 de julho de 2013

Doença

Tudo começou quando eu tinha quinze anos. Festas todos os finais de semana e a maior beijação. Menos, é claro, para mim.
Eu era amiga das pessoas legais. Eu os via bêbados, drogados, e beijando –as vezes bem mais do que beijar, e em público mesmo- praticamente todo mundo. Meus amigos sóbrios eram bem rigorosos no quesito beleza, mas depois de uma ou duas carreirinhas, o padrão caía bastante. E eu estava sempre sentada rindo deles ou mexendo no celular. Eu era a amiga feia. Quem iria querer a menina gorda dos dentes separados? Ninguém. Nem mesmo alguém cheirado. Eu era a gordinha engraçada, vista como o irmão dos meninos e alguém que nunca seria uma possível ameaça das meninas.
Até que um dia, em uma dessas festas, fiquei extremamente triste por ser gorda, feia e rejeitada, e tomei a decisão que mudaria minha vida: eu emagreceria. Mal cheguei em casa e joguei fora tudo que poderia estragar minha dieta: barras de chocolate, bombons, bolachas, doces diversos e salgadinhos. Passei a comer quilos e mais quilos de salada e a frequentar a academia. Ralei um mês inteiro. Estava me sentindo linda e magra, até que resolvi me pesar: dois quilos a mais. Chorei até não conseguir mais chorar. E foi aí que aconteceu. Eu parei de comer.
Nos primeiros dois dias quase me matei. Devo ter tomado uns oito livros de água, e nada de matar a fome. Cada vez que dormia, acordava com mais fome. Tentei absolutamente tudo, mas nada conseguia me distrair para esquecê-la.
Só consegui dois dias. Comi no terceiro. Comi como nunca havia comido. Não parava para respirar e nem ao menos sentia ao gosto. Mastigava o suficiente para não morrer engasgada e engolia. Comi tanta coisa diferente ao mesmo tempo que não consigo me lembrar o que era.
Quando finalmente me senti satisfeita, chorei. Dois dias de esforço para absolutamente nada. Eu era um lixo. Fraca, incompetente. Dois dias de luta se acabaram em vinte minutos. Eu me sentia o pior ser vivo da Terra. Quando parei de chorar, fiz a coisa que mais me parecia obvia: me tranquei no banheiro e enfiei um dedo na garganta. Coloquei o dedão bem lá no fundo e prendi meu rosto com o indicador, só para garantir que eu não desistiria de novo. Demorou e eu sofri, mas quando finalmente terminei, me senti bem. Ótima, na verdade.
E essa acabou virando minha rotina. Não comia nunca, e quando comia, vomitava. Fui me acostumando, e depois de um tempo o jejum e os vômitos começaram a parecer agradáveis e amigáveis.
Fui emagrecendo cada vez mais. Quando descobri que o cigarro e a cocaína emagreciam, passei a usá-los. A cocaína eu usava muito pouca, era extremamente raro. Mas fumava quase dois maços de cigarro por dia e comia quatro ou cinco refeições por semana. Tudo em nome da beleza.
Eu fiquei linda. Estava magérrima, e agora usava todas as roupas que queria. Não me importava com o frio, vento ou chuva: usava roupas curtas e apertadas para mostrar o como eu era linda.
Meu peso já não era mais um problema, e meus dentes se tornaram um charme. Eu era linda, magra e disputada por todos os homens. Minhas amigas se tornaram mais amigas por eu estar cada vez mais parecida com elas. Éramos gêmeas da beleza.
E aí eu piorei.  Nem quando eu queria conseguia comer. Desmaiava cada vez mais, fumava e cheirava cada vez mais.
Hoje estou em uma clínica. Não vejo mais minhas amigas, mas sinto falta delas. Sei que estão aproveitando por mim. Meus pais estão completamente loucos de tanto desespero. Minha única preocupação no momento é se vou perder minha beleza. Não me esforcei tanto para recuperar todos os meus quilos. Mas conheci pessoas legais aqui. Não gosto de todo mundo, mas encontrei meninas iguais a mim. Vou ficar aqui por um bom tempo ainda. Não quero sair daqui gorda, tenho medo disso. Entrei tão linda.


segunda-feira, 15 de julho de 2013

Ninguém disse que seria fácil

Juras de amor escritas em um guardanapo. Noites mal dormidas e manhãs de desespero. Porres catastróficos para esquecê-la. Lágrimas perdidas e coração destroçado. Não sentir seu toque quando conversavam. Não saber como era a textura de sua pele. Não saber o gosto de seus lábios, não poder contornar as curvas de seu corpo com as mãos e a boca. Vê-la com outro, sorrindo e gargalhando. Vê-la beijando uma boca que não era sua, apertando mãos que não o pertenciam, chamando um nome que não era seu. Saber que ela desejava um corpo que não era seu, que ela acordava em uma cama que não era a sua. Sentia-se o maior dos covardes por não ter se declarado, mas sabia que de nada adiantaria. Não sentia inveja do outro. Muito menos ódio. Só queria ser o outro. Queria estar na vida dela. 



Ps: Não gostei muito, ble. Mas só pra manter aqui atualizado, mesmo.

quinta-feira, 4 de julho de 2013

De nosso para meu

Acendi um cigarro e voltei para minha cama. Ele me deixou há exato um mês.
O que, sejamos sinceros, é normal. Já perdi a conta de quantos homens me deixaram. E mulheres. Eu sou bem insuportável. Uma louca que não sabe o que quer da vida, não tem emprego fixo e muito menos algum limite.
Mas dessa vez foi diferente. Eu o amava. E ele nem ao menos falou comigo. Não disse seus motivos, não explicou o que estava acontecendo, não pediu desculpas. Essa foi a primeira vez que fui deixada sem explicação. Confesso que já fiz isso antes, fugir de alguém. Poucas vezes, mas fiz. Mas eu nunca havia isso deixada, no sentido literal da palavra.
Eu acordei e o dei um beijo de bom-dia. Tomei banho, fiz café e saí para trabalhar. Tinha arranjado um bico nessa época. Estava tentando me esforçar na vida para virar uma pessoa melhor. Talvez até conseguisse formar uma boa família se ambos nos esforçássemos. Enfim. Sai para trabalhar. Era garçonete em um restaurante perto de nosso apartamento. Era um lugar pobre e sujo, cheio de homens grotescos. Eu era cantada o tempo todo, e fui aconselhada pelo meu chefe a aguentar as apalpadas que ocasionalmente levava. Se eu reagisse, o cliente poderia se tornar agressivo e geraria uma confusão enorme. E, consequentemente, eu estaria no olho da rua, não importando se eu era a vítima com um hematoma roxo na bunda. Mas eu aguentava isso. Trabalhei lá por três meses.
E, nesse nosso último dia, não foi muito diferente. Fui apalpada por velhos sem dente e obrigada a sorrir –eu podia não ter uma vida boa, mas felizmente tinha meus dentes-, ouvi gritos, limpei a urina do banheiro –quando fui contratada não fui avisada que no fim do expediente teria que limpar uma coisinha ou outra. Nesse caso, urina-, a cerveja no chão e ajeitei as cadeiras. Dei um tchau para minha colega de trabalho –ela trabalhava no caixa do restaurante, e morria de dó de mim porque eu sofria bem mais que ela lá. E eu morria de dó dela porque ela era obrigada a trabalhar lá para cuidar do pai doente. É o que eu sempre digo: nascer em família pobre é um inferno-, para meu chefe e saí. Aproveitei para comprar comida para nós dois. Tínhamos o ritual de comer alguma porcaria todas as segundas feiras. Nessa, eu havia escolhido cachorro quente. Eu sempre adorei tradições, principalmente as tradições familiares. Faz parecer que todos são bem mais unidos do que realmente são. Exatamente por isso sugeri uma tradição para nós dois: comer algo não-saudável de janta todas as segundas-feiras. Era simples, gostoso, conseguíamos pagar e nos mantinha unidos.
Comprei dois cachorros quentes e duas latas de refrigerante. Estava feliz por estar fora do trabalho e cada vez mais perto dele. Meu lar era dentro de seus braços. E quanto mais ele me apertava, mais eu me sentia bem. Era a melhor sensação do mundo saber que eu tinha alguém que fazia com que eu me sentisse menos miserável.
Abri a porta do apartamento e tirei os sapatos.
-Cheguei!
Nada.
-Querido? Eu já cheguei.
Nada.
Nenhum som. Nenhuma bagunça na sala ou na cozinha. Fui andando de cômodo em cômodo (como se fossem muitos...) procurando sua presença. Mas não havia nada na sala. Nada na cozinha. Nada no banheiro. E só havia mais um cômodo. E eu não queria descobrir se ele também estava vazio. Voltei a vasculhar, na esperança de achar algum sinal. Mas o box do chuveiro estava seco e a tampa do vaso abaixada; A pia da cozinha estava limpa e não havia nada no lixo; A sala estava como eu havia deixado de manhã, sem nenhum calçado ou meia jogado.
Decidi que aquela era a hora da verdade. Só restava entrar em nosso quarto.
-Amor? Eu já cheguei...
E como eu já esperava: nada. A cama estava arrumada; Não havia nenhum desodorante ou perfume que o pertencesse na cômoda; Minha mala não estava mais embaixo da cama e sua parte no armário estava vazia.
Um mês depois, ainda não sei como me sinto. Em minhas conversas imaginárias, sempre que me perguntam como eu estou, respondo algo do tipo:
-Não sei.
-Não sabe mesmo? Tente explicar.
-Eu sinto todos os sentimentos ruins do mundo ao mesmo tempo.
E não achei descrição melhor que essa. Sou nova, bonita, poderia ter um futuro ótimo se quisesse, e mesmo assim passei um mês inteiro trancada em meu apartamento. Não abro a porta da frente há um mês. Não olho para a janela há um mês. Passei trinta dias indo do sofá para o quarto, do quarto para o banheiro, do banheiro para a cozinha, e de volta para a sala. 720 horas vazias. Mas acho que vou ter que sair qualquer hora dessas. Apesar de não estar comendo muito, a comida está acabando. Sei que tenho que sair para comprar mais, mas não quero. Ao mesmo tempo, não quero morrer.
É difícil ter esperança na vida quando ela já me deixou.

quarta-feira, 3 de julho de 2013

Insanidade

Eles estão atrás de mim. Não sei quem são, muito menos o que querem, mas eles estão atrás de mim. Ouço vozes e vozes em minha cabeça e não sei quem está falando. Não entendo tudo o que dizem. É uma mistura completa. Confusa, maligna, mortal.
Vejo sombras, ouço passos e conversas, mas não há absolutamente ninguém quando me viro. Uma voz masculina grita. A feminina ri um riso estridente que me traz enjoos e vontade de morrer.
Mais passos atrás de mim. Quando me viro, a cozinha está vazia. De novo. Mas dessa vez vejo uma sombra se movendo, como que na tentativa de fugir de meu campo de visão. Tento ver o dono da sombra, mas fico apenas girando em volta de mim mesmo. As sombras e as vozes estão lá, mas não pertencem à ninguém.
Grito um grito desesperado, cheio de ódio e medo. Arranco um ou dois punhados de cabelo e grito novamente. Após alguns segundos de reflexão decido que um banho acalmará meus nervos.
No chuveiro, nada melhora. Na realidade, as coisas pioram. Vozes se intercalaram para conversar e me xingar. No começo são apenas duas, mas mais pessoas se juntam para acabarem comigo. Falam cada vez mais alto, até chegarem ao ponto de grito. Fecho as mãos e coloco em meu rosto em completo desespero. Eu não sei o que querem comigo. Não sei o que fazer. Eu não aguento mais.




(Inspirado em: http://medob.blogspot.com.br/2013/05/esquizofrenia-voce-aguentaria.html)