segunda-feira, 26 de novembro de 2012

Natalie e Marcos namoravam há dois ou três anos. Não sabiam, já haviam perdido as contas. Eram o exemplo perfeito de namoro sem sentimento.
Ela era rica, e ele inteligente, julgados sempre como um casal perfeito. Mas não se gostavam. Natalie até se apaixonou no início, mas logo viu quem ele realmente era.
Ela sempre se perguntava porquê ainda não havia terminado o namoro. E a resposta era sempre a mesma: "E por que não continuar?"
Até que um dia Natalie encontrou a resposta. Foi quando apanhou pela primeira vez. Os dois estavam brigando -e ela nunca conseguia se lembrar do motivo- e Natalie ameaçou terminar a relação. Instantaneamente, Marcos a esbofeteou no rosto. Disse calmamente que se eles terminassem ou ela contasse sobre o ocorrido para alguém, ele a mataria.
E Natalie suportou um namorado que a bate e a ameaça constantemente por tempo suficiente. Até que um dia se cansou. Comprou uma arma e algumas balas. Não sabia atirar, mas imaginava que não poderia ser tão difícil assim. Saindo da loja, passou em um restaurante japonês -o favorito de Marcos- para comprar comida, e o convidou para almoçarem juntos.
Marcos foi. Comeu. Bebeu. Bebeu mais um pouco. Era aquele tipo de homem que fica agressivo quando bebe. Sua voz foi aumentando. Suas palavras começaram a ficar cada vez mais grosseiras e Natalie, assustada, se levantou. Marcos não gostou. Gritou que ela era uma cadela arrogante, riquinha de merda. Então deu-lhe um soco no olho. Natalie gritou. Tentou correr mas não conseguiu: Marcos a agarrou. A mulher, em completo desespero, estava longe da arma. Pegou a faca que estava na mesa e enfiou na mão de seu opressor.
Então correu. Pegou o revolver que estava em uma gaveta na sala e voltou para a cozinha, que estava vazia. Quando deu por si, Marcos a agarrava por trás. Apavorada, mirou no pé de Marcos, que caiu. Sem pensar, Natalie mirou a arma para o peito de Marcos. Atirou duas vezes e o deixou. Foi em completo desespero para seu quarto. Separou uma mala com algumas roupas e dinheiro.
Planejava conquistar uma vida inteiramente nova.

sábado, 24 de novembro de 2012

Ela era loira e tinha os olhos mais verdes que já havia visto. Cheirava à vinho barato, cigarros e baunilha. Seus lábios, pequenos e delicados, tinham gosto de batom, cigarros e álcool.
Parecia delicada por ser tão pequena, até que desatava a falar com aquela voz fina e poderosa. Falava sobre como queria ser, sobre como deveria ser o mundo perfeito, sobre o futuro, sobre o labirinto.
Queria ser professora para ensinar crianças deficientes. Queria pessoas com atitude no mundo. Queria que não houvesse labirinto algum. Queria parar de sofrer.
Era a garota mais linda que eu já havia conhecido. E a mais triste também. Falava sobre morte, sobre o desespero, sobre os fantasmas que habitavam sua vida.
Quando a conheci, queria que ela me amasse. E ela me amou. Não o suficiente, sem conseguir superar meu amor, mas amou. E então me deixou.
E eu só queria que ela estivesse aqui, como amiga ou amante. Só queria nós dois deitados juntos sob o luar, bebendo vinho barato, fumando e lendo poesia.
Talvez se ela soubesse a intensidade do meu amor, teria ficado. Então eu a espero. Sempre a esperarei.

quinta-feira, 22 de novembro de 2012

É dia de passeio, finalmente. Não aguentava mais esperar. Mamãe e eu vamos ao zoológico. Papai não pode ir porque está trabalhando. Papai sempre está trabalhando.
Já havia separado minha roupa na noite anterior. Calças jeans e uma blusa estilo regata. Eu a escolhi porque ela é cor de pêssego, e eu amo comer pêssegos.
Como já me troquei, desço as escadas e espero que mamãe termine de arrumar a bolsa. Estamos levando pão, torrada e suco. Mamãe não gosta que eu tome refrigerante, diz que faz mal.
Sento no carro e coloco o cinto. Mamãe procura uma música legal no rádio, até que encontra. Então ela começa a me contar de quando era mais nova. Mamãe era hippie. Usava roupas coloridas e só queria a paz. Eu acho que todos nós deveríamos ser hippies. Eu adoro ouvir mamãe contando sobre o passado dela, então nem reparo quando ela estaciona.
No zoológico nós vimos vários animais. Nós olhamos o leão, as tartarugas, os macacos, ursos e girafas. Eu gosto dos ursos, mamãe prefere os macacos. Nós comemos e voltamos para o carro.
Já desenhei tudo o que vimos, e agora estou na cama.
Sonho com o zoológico. Eu gosto mesmo dos ursos. Mamãe gosta mesmo dos macacos.
Acordo para ir para a escola. Me arrumo e mamãe me leva para lá. Conto para todas as minhas amigas sobre os ursos e macacos. Aposto que elas ficaram com inveja.
Chego em casa e dou um beijo na mamãe. Ela diz que eu devo fazer minhas lições enquanto a comida não fica pronta, então subo e me concentro em fazer as tarefas que a professora de inglês passou.
Então escuto um grito. Mamãe caiu? Desço para ver. Mamãe está deitada no chão. Acho que está cansada demais para continuar a cozinhar.
Mamãe não para de fazer uns barulhos estranhos. Não lembro do macaco ter a machucado. Sabia que não deveria confiar nele. Aí percebo que mamãe parou de falar fininho. Dormiu. Acho melhor a cobrir, do mesmo jeito que ela faz quando eu durmo no sofá. Enquanto mamãe não acorda, fico do lado dela. Faço a lição depois, ela vai entender.
Então papai chega. Falo para ele parar de gritar, pois desse jeito vai acordar mamãe. Mas mamãe não acorda de jeito nenhum. Estranho. Ela sempre acordou com qualquer barulhinho.
Papai está chorando. Ele abraça e beija mamãe mesmo com o rosto cheio de lágrimas.
"Alasca..."
"Oi, papai"
Mas papai não responde, mesmo que tenha me ensinado que eu sempre tenho que responder quando me chamam.
"A sua mãe, Alasca" quase não consigo entender papai no meio de tantas lagrimas. "A sua mãe se foi, Alasca"

quarta-feira, 21 de novembro de 2012

Ele era moreno. Tinha cabelos castanhos e olhos apaixonados. Era alto e magro. Tinha corpo de homem.
Ela era branca e tinha cabelos pretos curtos. Seu sorriso o encantava.
Se completavam.
Não eram um casal perfeito. Não demonstravam muito afeto na frente dos outros e às vezes brigavam. Às vezes as brigas eram sérias. Outras vezes nem tanto.
Ele, que sempre fora triste, encontrara sua alegria com ela.
Ela, que sempre fora sozinha, encontrara sua felicidade com ele.
Ela era meio tonta. Falava o que não devia, não pensava nas consequências. Queria sempre se provar, quando na verdade era quem mais precisava de ajuda.
Ele era meio louco. Tinha alguns ataques de tristeza, de raiva. Mas era a melhor pessoa que ela já havia conhecido. Achava que ele tinha sido enviado por Deus especialmente para ela. Visualizava nele tudo o que sempre quis ter, tudo o que sempre quis ser.
Ele era seu anjo. Anjo que as vezes não recebia todo o cuidado que deveria. Anjo que nem sempre era bem tratado. Anjo que às vezes sofria. Anjo que ela amava tanto que doía.
Chorava sempre que pensava que podia o perder. Soluçava. Chorava quando pensava que havia o magoado. Chorava quando pensava em qualquer coisa ruim poderia acontecer com ele.
Mas ambos sabiam da coisa mais importante.
Foram feitos um para o outro.
E nada poderia os separar. E nada os separará

terça-feira, 20 de novembro de 2012


Chip aumentou o som do carro.
“Que demora, filho. Aonde vamos?”
Ignorou. Havia esperado aquele momento por anos, não poderia estragar a surpresa.
Acelerou o carro. Apesar de ser outro, dessa vez bem mais chique e caro, ainda era verde. Queria manter a origem pobre, lembrar-se sempre de quem era e de como crescera na vida. Era Chip Martin, um rapaz pobre, mas que com muita luta, conseguiu virar alguém.
Pela janela, viam-se árvores. Dezenas, centenas delas. E como era outono, um tapete de folhas amareladas cobria o chão. No meio das árvores calvas e casas simpáticas, uma placa branca.
“Mountain Brook? Por que estamos em Mountain Brook, filho?”
Por fim Chip parou o carro. O estacionou em frente a um sobrado de madeira. Eram pintadas de verde claro, e talvez se camuflassem no meio de tantas árvores na primavera. Quem sabe. 
“Cuidado com a cerca. Ainda está molhada. O pintor só terminaria semana que vem, e não tenho paciência para esperar tudo isso. A senhora me conhece.”
Casa verde, telhado marrom, cerca branca. Várias árvores e um canteiro de flores de diversas cores, diversos tipos. Exatamente do jeito que Dolores gostava. 
Entrou, tomando cuidado para não se sujar com tinta molhada. Então virou-se para o filho. Chip estava com lágrimas nos olhos, um sorriso no canto da boca e uma chave na mão. Pegou a mão de sua mãe, e logo após colocar a chave em sua palma, fechou a mão da mãe e deu um beijo.
“Obrigado.”

Cartas


Valinhos, 19 de novembro de 2012
Caro eu.
Eu sei que não é fácil. Nada, na verdade, é fácil. Eu sei que as preocupações aumentam a cada dia que se passa. Eu sei que a sua -que a nossa- mente trabalha a cada minuto para resolver os problemas, diminuir as aflições.  Eu sei que o desespero para sair do labirinto é imenso, e eu sei que você tenta achar a saída a todo instante. Eu sei que é desesperador. E eu também sei que isso vai passar. 
Talvez nós não encontremos a saída do labirinto. Talvez fiquemos presas nele até o resto de nossas vidas. Mas talvez nós consigamos viver em paz, mesmo trancadas nele. Não fique mal por estar presa no labirinto, flor. Fique feliz por sabermos que a convivência parcialmente amigável com ele nos manterá viva. Nos manterá sã. E é exatamente isso que nos diferencia dos outros. 
Há dois tipos de “outros”. Os Outros que não sabem que estamos em um labirinto, e os Outros que não sabem de nosso pequeno segredo para a sobrevivência nele. E os Outros enlouquecem por isso. Enlouquecem mais que nós, mais que todos.
Então, flor, saiba que quando tudo estiver ruim, significa que você errou o caminho para a saída. Significa que bateu de frente a uma parede fechada. Mas saiba também basta dar meia volta e continuar andando. 
Temos toda a vida pela frente, flor, e diversos caminhos pelo labirinto. Estamos apena em sua entrada para desistirmos.
Com grande carinho,
B.P.