quinta-feira, 1 de agosto de 2013

Outro lado

Eu a amava. No começo nos esforçávamos para tudo dar certo, então era perfeito. Tentamos largar nossos vícios (mas eu sei que ela fumava escondida ainda assim) e trabalhar. Pensávamos até em formarmos uma família. Nós dois e um belo menininho. Se desse certo, uma filha também, mas dependeria das nossas condições.
Ela começou a trabalhar de garçonete, e eu era vendedor em uma loja barata de móveis. Lá, por dois mil reais você conseguiria mobiliar quase sua casa inteira. Claro que em poucos meses você teria que comprar tudo novamente, já que o sofá se quebrava com o peso de uma pena, mas não vem ao caso.
Eu queria ter uma vida feliz com ela. Queria a fazer feliz e ser feliz ao lado dela. Mas era simplesmente impossível. Ela era louca, completamente doente. Chorava o tempo inteiro, reclamava de tudo, não conseguia ver o lado bom nem das coisas boas. E eu achei que pudesse consertá-la. Mas não havia nada de errado para ser consertado: ela era assim. Eu passava horas acariciando seu cabelo, tentando fazê-la parar de chorar e finalmente dormir, enquanto minha roupa de encharcava com suas lágrimas. Comprava flores, livros, roupas, mas nada a animava. E quando apareci com um cartão de uma terapeuta, falando que pagaria uma consulta para ela, gritou como se estivesse apanhando até a morte. Quase não tínhamos mais copos e pratos. Em momentos de ódio, quebrava todos jogando-os na parede ou no chão. Eu sei que ela se esforçava para vivermos bem e formamos uma família, mas simplesmente não adiantava. Ela tentou mudar por nós, mas nunca tentou mudar por ela. Eu sei amor, mas não era o que ela precisava. O que ela realmente precisava era se amar e se conhecer. Coisa que, nesse nosso tempo juntos, nunca aconteceu.
Ela se degradou cada vez mais. Mas eu insisti. Fiquei com ela, cuidei dela. Mas, vendo-a completamente louca, a paixão foi embora. Eu não estava mais apaixonado. Estava com dó. Quando ela dizia que me amava, eu só a beijava. Quando ela falava que eu era tudo que ela tinha, eu ria. Não havia restado a menor fagulha de amor ou paixão por ela. E ela sabia disso. Era algo obvio de se observar.
Então ela desistiu de mim. Não prometeu melhorar nunca mais, e não se importava se estava me (ou se) deixando mal. E eu desisti dela. Não fazíamos mais amor: transávamos por puta rotina. Ainda nos tratávamos, em raros momentos, de forma extremamente carinhosa, mas não havia mais brilho nenhum.
E um dia, depois de uma foda horrorosa, eu decidi que era minha hora de ir. Dormimos, e no dia seguinte, acordamos juntos. Fingi que estava dormindo, e quando ela saiu, peguei minhas roupas e as coloquei em sacolas de mercado. E fui embora. Sem dizer adeus, sem me explicar. Sei que foi horrível de minha parte. Sei que ela ainda sofre. Mas foi necessário. Viver daquela maneira era mil vezes pior.