segunda-feira, 9 de setembro de 2013

Leandro simplesmente apareceu lá. Não fora para aquele lugar porque queria. Muito menos acordou lá. Em um segundo estava no carro (estava conversando com alguém no celular, disso se lembrava. Só não sabia com quem), e, no outro, lá.
Não sabia onde o lá era. Não sabia nada sobre o lá. Fora parar ali como que em um passe de mágica e estava sentado em um chão feito de pedras cinza. O lá era um corredor preto iluminado com tochas na parede.
-Mas que lugar é esse, meu Deus?
Levantou-se do chão e pegou uma tocha, só por precaução. Não sabia se ia para a direita ou esquerda do corredor. Passou uns belos minutos virando o rosto tentando achar uma resposta. Por fim, decidiu i para a esquerda.
Não andou por muito tempo. Parou assim que ouviu uma voz.
-Eu vim desse lado. Não tem nada, não.
Era uma mulher. Baixa, loira e feia, mas  tinha uma aparência tão simpática que Leandro automaticamente se afeiçoou a ela. Parecia cansada e triste, mas nada a impedia de seguir em frente e achar o fim do corredor. Andaram em silêncio por bastante tempo em completo silêncio, até que por fim a mulher se pronunciou.
-Eu eestava voltando para casa, sabe?tinha ido para a igreja. Estava caminhando tranquilamente, e quando virei a esquina... ela virou esse corredor.
-Eu sei. Foi assim comigo também.
Continuaram andando. Percorreram longos quilômetros até começarem a ouvir vozes.
-Esse é MEU!
-Mas, veja bem. Ele se arrependeu.
-Não importa. Você sabe que é pura conversa dele. Você não pode estuprar alguém e ir para o céu.
-Nomes? –disse uma voz bem a frente deles. Estavam tão atordoados com a conversa que nem aso menos perceberam a existência de um portão e uma pessoa-. Nomes? Ah, tudo bem. Entrem.
OS portões –enormes, duas vezes a altura de um homem alto, e de ouro- se abriram e eles entraram.
Era uma sala imensa. As paredes eram todas de ouro e –de novo- iluminadas por tochas. Era ocupada por bancos de madeira, e na parte principal havia cadeiras altas e decoradas. Havia centenas de pessoas nos bancos, todas quietas e com olhares profundos.
Na cadeira principal havia um homem velho, de cabelos compridos e barba branca. Ao seu lado havia um elegante homem de terno preto. Magro, alto, jovem e bonito. Do lado deles havia mais um homem, mas ele era comum e simples. Um desses homens que se vê quando se anda na rua.
-Vocês. Aqui no banco da frente, por favor –disse o homem comum-. Hmm... Não, melhor não. Aqui, de pé. Na minha frente, depressa.
-Nomes? –disse o homem velho. Sua voz era grave e extremamente alta.
O homem comum verificou seus papeis por um momento antes de falar.
-Leandro de Assis e Carolina Mendes, Senhor.
-Causa da morte?
-Morte? Oi? -disse Leandro, que foi completamente ignorado.
-Acidente de carro. Olhe só, que coisa. Carolina estava voltando a pé da igreja e foi atropelada por Leandro, que estava falando no celular. Ele morreu na hora, mas ela agonizou por alguns minutos antes de morrer. Pelo o que vejo aqui, a deixamos inconsciente, Senhor, pois não merecia sofrer.
-Eu sabia que celular era uma péssima ideia, mas hoje em dia ninguém mais me escuta. E sobre ela?
-Ótima mulher. Temente a Ti, cuidava da família, ajudava a todos que podia. Nunca roubou, matou, traiu e sempre quis o bem geral. Não há dúvidas sobre a sentença de nenhum dos dois.
-Um a um, então? –disse o jovem elegante.
-Temo que sim. Dessa vez não há escolha.
Leandro se assustou, principalmente quando viu Carolina sendo levada para outro portão perto do homem velho.
-Mas e eu? E eu? O que está acontecendo? Por favor, me expliquem!
-Você morreu –disse o homem comum-. Morreu e matou uma moça com um grande futuro pela frente. E por isso vai para o inferno.
-NÃO! Deus? Ajude-me, Deus. Por favor.
-Você fez suas escolhas, filho. Teve uma longa e ótima vida, e nunca se lembrou de mim. Nunca agradeceu sua vida, a vida de seus queridos ou alguém bem que conseguiu. E, depois de me desprezar por toda a sua vida, matou uma pessoa. Eu sinto muito, meu filho, muito mesmo. Mas você fez suas escolhas. Guardas? Levem-no.
-Mas, e o arrependimento? Eu não tive tempo de me arrepender! Eu me arrependeria de tudo, meu Deus!
-Cometer erros imaginando que está tudo bem porque no final haverá o perdão é uma das piores coisas que alguém pode fazer. Próximo?
-Lara de Holanda, Senhor.
-Causa da morte?
-Fome e desidratação. A garota foi sequestrada e morreu vinte anos mais tarde, ainda refém. Não há dúvidas, Senhor.
-Droga! –disse o jovem elegante.
-Posso perguntar mais uma coisinha?
-Diga, filho.
-Se ele é o Diabo, por que é tão jovem e bonito?
-Nós nos transformamos em qualquer coisa. Muitos pensam que eu sou assim –e dizendo isso se transformou em uma coisa vermelha, monstruosa, e com chifres- ou assim –dessa vez se transformou em uma mulher nua. Os cabelos compridos escondiam os bicos dos seios, mas ainda era uma mulher extremamente sensual, com olhos que mostravam puro desejo-, e na verdade eu sou várias coisas. Tudo depende de qual é o maior medo ou ambição da pessoa. ,as normalmente eu sou assim: um homem que acabou de se transformar em um adulto, rico, educado, elegante e bonito. As pessoas não esperam maldade das coisas bonitas. E é tão mais fácil seduzir uma alma assim. Você mesmo caiu no meu truque. Esse homem que sou é tudo que você sempre quis ser.
-Então... Por que você não faz isso também, Deus? Transformar-se em alguém jovem e bonito para conquistar mais almas?
-Eu gosto das almas verdadeiras. Gosto de quem merece e conquista o céu. Seria fácil demais, Leandro. Certas coisas merecem ser conquistadas.
E sendo esse o fim da conversa, dois guardas o pegaram pelos braços.
-Não precisa. Eu vou sozinho.
Mas não adiantou: continuou sendo puxado. Leandro caminhou para sua última casa, e nessa caminhada observou as pessoas do banco. Com exceção de sete pessoas, todas estavam tristes, pálidas e com rostos sérios. Não conhecia ninguém de lá.
Os guardas abriram os portões pretos e o empurraram. Era um corredor todo preto, e quanto mais andavam, mais quente ficava. Quando pensou que fosse derreter, os guardas o pararam.
-Chegamos. Boa-sorte. Você vai precisar.
Empurraram-no para dentro, e então teve a certeza de que derreteria. O inferno era cheio de fogo, sim, mas não havia pessoas queimando.  Eles estavam presos em um círculo de fogo.
-Qual seu nome?
-Eu... não sei.
Pouco a pouco foi se esquecendo de quem era e porque estava ali. Sabia que iria apanhar, ver alguma cena que ainda o deixaria horrorizado e apanharia mais. Era a rotina daquele lugar.
Talvez ser queimado pela eternidade era melhor do que as torturas que sofria e era obrigado a ver.

Um dia, sem ao menos se lembrar de que era, pensou: “Vou ser o primeiro a fugir daqui”.


N.A.: Esse texto é meio velho e eu nunca postei por vergonha, nem sei ao menos de quê. Só resolvi postar porque o coitado do blog tá hiper parado. Vamos resumir  com: tá difícil pra caralho conseguir escrever esses tempos. É isso. Beijoca.