quinta-feira, 18 de julho de 2013

Doença

Tudo começou quando eu tinha quinze anos. Festas todos os finais de semana e a maior beijação. Menos, é claro, para mim.
Eu era amiga das pessoas legais. Eu os via bêbados, drogados, e beijando –as vezes bem mais do que beijar, e em público mesmo- praticamente todo mundo. Meus amigos sóbrios eram bem rigorosos no quesito beleza, mas depois de uma ou duas carreirinhas, o padrão caía bastante. E eu estava sempre sentada rindo deles ou mexendo no celular. Eu era a amiga feia. Quem iria querer a menina gorda dos dentes separados? Ninguém. Nem mesmo alguém cheirado. Eu era a gordinha engraçada, vista como o irmão dos meninos e alguém que nunca seria uma possível ameaça das meninas.
Até que um dia, em uma dessas festas, fiquei extremamente triste por ser gorda, feia e rejeitada, e tomei a decisão que mudaria minha vida: eu emagreceria. Mal cheguei em casa e joguei fora tudo que poderia estragar minha dieta: barras de chocolate, bombons, bolachas, doces diversos e salgadinhos. Passei a comer quilos e mais quilos de salada e a frequentar a academia. Ralei um mês inteiro. Estava me sentindo linda e magra, até que resolvi me pesar: dois quilos a mais. Chorei até não conseguir mais chorar. E foi aí que aconteceu. Eu parei de comer.
Nos primeiros dois dias quase me matei. Devo ter tomado uns oito livros de água, e nada de matar a fome. Cada vez que dormia, acordava com mais fome. Tentei absolutamente tudo, mas nada conseguia me distrair para esquecê-la.
Só consegui dois dias. Comi no terceiro. Comi como nunca havia comido. Não parava para respirar e nem ao menos sentia ao gosto. Mastigava o suficiente para não morrer engasgada e engolia. Comi tanta coisa diferente ao mesmo tempo que não consigo me lembrar o que era.
Quando finalmente me senti satisfeita, chorei. Dois dias de esforço para absolutamente nada. Eu era um lixo. Fraca, incompetente. Dois dias de luta se acabaram em vinte minutos. Eu me sentia o pior ser vivo da Terra. Quando parei de chorar, fiz a coisa que mais me parecia obvia: me tranquei no banheiro e enfiei um dedo na garganta. Coloquei o dedão bem lá no fundo e prendi meu rosto com o indicador, só para garantir que eu não desistiria de novo. Demorou e eu sofri, mas quando finalmente terminei, me senti bem. Ótima, na verdade.
E essa acabou virando minha rotina. Não comia nunca, e quando comia, vomitava. Fui me acostumando, e depois de um tempo o jejum e os vômitos começaram a parecer agradáveis e amigáveis.
Fui emagrecendo cada vez mais. Quando descobri que o cigarro e a cocaína emagreciam, passei a usá-los. A cocaína eu usava muito pouca, era extremamente raro. Mas fumava quase dois maços de cigarro por dia e comia quatro ou cinco refeições por semana. Tudo em nome da beleza.
Eu fiquei linda. Estava magérrima, e agora usava todas as roupas que queria. Não me importava com o frio, vento ou chuva: usava roupas curtas e apertadas para mostrar o como eu era linda.
Meu peso já não era mais um problema, e meus dentes se tornaram um charme. Eu era linda, magra e disputada por todos os homens. Minhas amigas se tornaram mais amigas por eu estar cada vez mais parecida com elas. Éramos gêmeas da beleza.
E aí eu piorei.  Nem quando eu queria conseguia comer. Desmaiava cada vez mais, fumava e cheirava cada vez mais.
Hoje estou em uma clínica. Não vejo mais minhas amigas, mas sinto falta delas. Sei que estão aproveitando por mim. Meus pais estão completamente loucos de tanto desespero. Minha única preocupação no momento é se vou perder minha beleza. Não me esforcei tanto para recuperar todos os meus quilos. Mas conheci pessoas legais aqui. Não gosto de todo mundo, mas encontrei meninas iguais a mim. Vou ficar aqui por um bom tempo ainda. Não quero sair daqui gorda, tenho medo disso. Entrei tão linda.


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