Tudo começou quando eu
tinha quinze anos. Festas todos os finais de semana e a maior beijação. Menos,
é claro, para mim.
Eu era amiga das pessoas
legais. Eu os via bêbados, drogados, e beijando –as vezes bem mais do que
beijar, e em público mesmo- praticamente todo mundo. Meus amigos sóbrios eram
bem rigorosos no quesito beleza, mas depois de uma ou duas carreirinhas, o
padrão caía bastante. E eu estava sempre sentada rindo deles ou mexendo no
celular. Eu era a amiga feia. Quem iria querer a menina gorda dos dentes
separados? Ninguém. Nem mesmo alguém cheirado. Eu era a gordinha engraçada,
vista como o irmão dos meninos e alguém que nunca seria uma possível ameaça das
meninas.
Até que um dia, em uma
dessas festas, fiquei extremamente triste por ser gorda, feia e rejeitada, e
tomei a decisão que mudaria minha vida: eu emagreceria. Mal cheguei em casa e
joguei fora tudo que poderia estragar minha dieta: barras de chocolate,
bombons, bolachas, doces diversos e salgadinhos. Passei a comer quilos e mais
quilos de salada e a frequentar a academia. Ralei um mês inteiro. Estava me
sentindo linda e magra, até que resolvi me pesar: dois quilos a mais. Chorei até
não conseguir mais chorar. E foi aí que aconteceu. Eu parei de comer.
Nos primeiros dois dias
quase me matei. Devo ter tomado uns oito livros de água, e nada de matar a
fome. Cada vez que dormia, acordava com mais fome. Tentei absolutamente tudo,
mas nada conseguia me distrair para esquecê-la.
Só consegui dois dias. Comi
no terceiro. Comi como nunca havia comido. Não parava para respirar e nem ao
menos sentia ao gosto. Mastigava o suficiente para não morrer engasgada e
engolia. Comi tanta coisa diferente ao mesmo tempo que não consigo me lembrar o
que era.
Quando finalmente me senti
satisfeita, chorei. Dois dias de esforço para absolutamente nada. Eu era um
lixo. Fraca, incompetente. Dois dias de luta se acabaram em vinte minutos. Eu me
sentia o pior ser vivo da Terra. Quando parei de chorar, fiz a coisa que mais
me parecia obvia: me tranquei no banheiro e enfiei um dedo na garganta. Coloquei
o dedão bem lá no fundo e prendi meu rosto com o indicador, só para garantir
que eu não desistiria de novo. Demorou e eu sofri, mas quando finalmente
terminei, me senti bem. Ótima, na verdade.
E essa acabou virando
minha rotina. Não comia nunca, e quando comia, vomitava. Fui me acostumando, e
depois de um tempo o jejum e os vômitos começaram a parecer agradáveis e
amigáveis.
Fui emagrecendo cada vez
mais. Quando descobri que o cigarro e a cocaína emagreciam, passei a usá-los. A
cocaína eu usava muito pouca, era extremamente raro. Mas fumava quase dois
maços de cigarro por dia e comia quatro ou cinco refeições por semana. Tudo em
nome da beleza.
Eu fiquei linda. Estava magérrima,
e agora usava todas as roupas que queria. Não me importava com o frio, vento ou
chuva: usava roupas curtas e apertadas para mostrar o como eu era linda.
Meu peso já não era mais
um problema, e meus dentes se tornaram um charme. Eu era linda, magra e
disputada por todos os homens. Minhas amigas se tornaram mais amigas por eu
estar cada vez mais parecida com elas. Éramos gêmeas da beleza.
E aí eu piorei. Nem quando eu queria conseguia comer. Desmaiava
cada vez mais, fumava e cheirava cada vez mais.
Hoje estou em uma clínica.
Não vejo mais minhas amigas, mas sinto falta delas. Sei que estão aproveitando
por mim. Meus pais estão completamente loucos de tanto desespero. Minha única
preocupação no momento é se vou perder minha beleza. Não me esforcei tanto para
recuperar todos os meus quilos. Mas conheci pessoas legais aqui. Não gosto de
todo mundo, mas encontrei meninas iguais a mim. Vou ficar aqui por um bom tempo
ainda. Não quero sair daqui gorda, tenho medo disso. Entrei tão linda.
Que texto FODA.
ResponderExcluirMuito foda, muito intenso e triste, amei demais esse texto. <3
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