terça-feira, 17 de dezembro de 2013

Jantar

Abriu a porta do quarto assim que ouviu a mãe gritando por ela. Como o tom de voz não era sério, passou primeiro na cozinha para beber um copo de água e pegou outro para a mãe antes de ir até o quarto dos pais.
-Oi, mãe.
-Você viu meu brinco de pérola, filha? Não acho em lugar algum.
-Vi sim, mãe. Na sua orelha.
-Na minha orelha? -Colocou a mão na orelha e percebeu que estava mesmo com os brincos que tanto procurou-. Devo estar  ficando louca. De qualquer forma,  feche o zíper do meu vestido, por favor.
A menina fechou e se sentou na cama observando a mãe se arrumar. O pai ainda estava no banho, e seu terno preto estava em cima da cama. Não tendo muito o que fazer, deitou-se na cama e ficou olhando o teto, somente pensando.
-Renata? Você está ouvindo, meu bem?
-Agora sim, mãe. Desculpa.
-Seu pai e eu voltaremos de madrugada, não nos espere. Se tudo der certo nós voltamos de lá com seu pai ganhando cinquenta mil por mês. Ai meu Deus, acho que vou vomitar. Como eu estou?
-Linda, mãe. Fica tranquila. É só sorrir, ser simpática e elogiar as esposas de todos eles.
-O dinheiro está na mesa da sala, pode pedir qualquer coisa que queira. E nada de festas ou garotos aqui em casa.
-Combinado. Mas posso chamar a Carla pra vir aqui? Só pra uma pizza e um filme.
-Claro, claro. Juízo e torça por nós, meu bem.
Renata se despediu dos pais desejando boa sorte no jantar da empresa antes de ligar para sua amiga, que logo chegaria. Ficou deitada no sofá da sala procurando algum filme bom: não achou. Quando a campainha tocou, a menina deu um pulo e correu para abrir a porta, e, em não muito tempo, ambas estavam esparramadas no sofá assistindo a um romance que Carla trouxera. Escolher um sabor de pizza foi complicado, mas logo resolvido, e, enquanto a comida não chegava, continuaram juntas no sofá, sem prestar atenção alguma no filme. Até que ouviram um barulho na cozinha, como se alguém tivesse tropeçado nas cadeiras.
-Você não disse que estava sozinha?
-Mas eu tô, Ca. Só nós duas aqui.
-Você não quer ir lá conferir?
-Mas nem morta.
-Por favor...
-Aaarg. Tá bom. 
E Renata foi. Passos pequenos e silenciosos para conferir se a solidão das duas era exata ou não. Pé ante pé. A cada passo, mais ela se assustava. Começara a suar e a adquirir um rosto infantil e amedrontado. Até que uma buzina tocou do lado de fora da casa.
-A pizza!
Ah, o alívio. O abençoado e delicioso alívio percorrendo todo o seu corpo que relaxava.
-Eu busco, Ca. Pode ficar aí que tá tudo bem -deu um abraço e um beijo em Carla, pegou o dinheiro que estava na mesa e abriu a porta se sentindo estranhamente leve-. Boa-noite, moço. Trinta e cinco, né?
Foi tudo muito rápido. Renata ouviu um grito horroroso de Carla logo após um barulho extremamente alto que não conseguiu identificar, e pulou para trás para ver o que estava acontecendo. Viu um homem grande e com capuz no corredor, e ao seus pés estava Carla deitada em uma posição torta. Havia sangue. Muito sangue. Havia sangue na camisa de Carla, sangue esse que escorria por todo o chão ao seu redor. 
Renata gritou. Num instinto, tentou correr, porém o entregador agarrou seus cabelos antes que conseguisse pensar em algo para se fazer.
-O DINHEIRO, PORRA! CADÊ A PORRA DO DINHEIRO?
Dinheiro? Quem pensaria em dinheiro com Carla morrendo no chão? Que se dane o dinheiro, pelo amor de Deus. Soltou-se das mãos do homem depois de muito custo e jogou-se no corpo da menina.
-Por favor, não morre, não morre, não morre. Eu te amo tanto, não me deixa, não me deixa, não me deixAH!
Era tarde demais. O invasor da cozinha atirou em Renata. Não havia nenhum sentimento no olhar do assassino. Duas jovens mortas em seus pés e ele não se importou. Só queria saber do dinheiro.
Como estavam em um bairro nobre, tiveram que se apressar. Polícia não tarda a chegar para ajudar gente rica, e isso eles aprenderam desde cedo. Pegaram dinheiro e algumas joias pois fora isso não havia mais nada de valioso. E correram. Muito. Fugiram o mais depressa que podiam com medo de serem presos.
Mas, ao contrário do que imaginavam, nenhum vizinho ligou para a polícia. Ninguém se importou com gritos e barulhos de tiros, estavam todos ocupados em seus mundos.
Então foi uma enorme surpresa quando os pais de Renata chegaram de madrugada comemorando o escritório particular e o aumento salarial e encontraram o corpo da filha caído sobre o da amiga.

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