Acendi um cigarro e voltei para minha cama. Ele
me deixou há exato um mês.
O que, sejamos sinceros, é normal. Já perdi a
conta de quantos homens me deixaram. E mulheres. Eu sou bem insuportável. Uma
louca que não sabe o que quer da vida, não tem emprego fixo e muito menos algum
limite.
Mas dessa vez foi diferente. Eu o amava. E ele
nem ao menos falou comigo. Não disse seus motivos, não explicou o que estava
acontecendo, não pediu desculpas. Essa foi a primeira vez que fui deixada sem
explicação. Confesso que já fiz isso antes, fugir de alguém. Poucas vezes, mas
fiz. Mas eu nunca havia isso deixada, no sentido literal da palavra.
Eu acordei e o dei um beijo de bom-dia. Tomei
banho, fiz café e saí para trabalhar. Tinha arranjado um bico nessa época.
Estava tentando me esforçar na vida para virar uma pessoa melhor. Talvez até
conseguisse formar uma boa família se ambos nos esforçássemos. Enfim. Sai para
trabalhar. Era garçonete em um restaurante perto de nosso apartamento. Era um
lugar pobre e sujo, cheio de homens grotescos. Eu era cantada o tempo todo, e
fui aconselhada pelo meu chefe a aguentar as apalpadas que ocasionalmente
levava. Se eu reagisse, o cliente poderia se tornar agressivo e geraria uma confusão
enorme. E, consequentemente, eu estaria no olho da rua, não importando se eu
era a vítima com um hematoma roxo na bunda. Mas eu aguentava isso. Trabalhei lá
por três meses.
E, nesse nosso último dia, não foi muito diferente. Fui apalpada por velhos
sem dente e obrigada a sorrir –eu podia não ter uma vida boa, mas felizmente
tinha meus dentes-, ouvi gritos, limpei a urina do banheiro –quando fui
contratada não fui avisada que no fim do expediente teria que limpar uma
coisinha ou outra. Nesse caso, urina-, a cerveja no chão e ajeitei as cadeiras.
Dei um tchau para minha colega de trabalho –ela trabalhava no caixa do
restaurante, e morria de dó de mim porque eu sofria bem mais que ela lá. E eu
morria de dó dela porque ela era obrigada a trabalhar lá para cuidar do pai
doente. É o que eu sempre digo: nascer em família pobre é um inferno-, para meu
chefe e saí. Aproveitei para comprar comida para nós dois. Tínhamos o ritual de
comer alguma porcaria todas as segundas feiras. Nessa, eu havia escolhido
cachorro quente. Eu sempre adorei tradições, principalmente as tradições familiares.
Faz parecer que todos são bem mais unidos do que realmente são. Exatamente por
isso sugeri uma tradição para nós dois: comer algo não-saudável de janta todas
as segundas-feiras. Era simples, gostoso, conseguíamos pagar e nos mantinha
unidos.
Comprei dois cachorros quentes e duas latas de
refrigerante. Estava feliz por estar fora do trabalho e cada vez mais perto
dele. Meu lar era dentro de seus braços. E quanto mais ele me apertava, mais eu
me sentia bem. Era a melhor sensação do mundo saber que eu tinha alguém que
fazia com que eu me sentisse menos miserável.
Abri a porta do apartamento e tirei os sapatos.
-Cheguei!
Nada.
-Querido? Eu já cheguei.
Nada.
Nenhum som. Nenhuma bagunça na sala ou na cozinha. Fui andando de cômodo
em cômodo (como se fossem muitos...) procurando sua presença. Mas não havia
nada na sala. Nada na cozinha. Nada no banheiro. E só havia mais um cômodo. E
eu não queria descobrir se ele também estava vazio. Voltei a vasculhar, na
esperança de achar algum sinal. Mas o box do chuveiro estava seco e a tampa do
vaso abaixada; A pia da cozinha estava limpa e não havia nada no lixo; A sala
estava como eu havia deixado de manhã, sem nenhum calçado ou meia jogado.
Decidi que aquela era a hora da verdade. Só restava entrar em nosso
quarto.
-Amor? Eu já cheguei...
E como eu já esperava: nada. A cama estava arrumada; Não havia nenhum
desodorante ou perfume que o pertencesse na cômoda; Minha mala não estava mais
embaixo da cama e sua parte no armário estava vazia.
Um mês depois, ainda não sei como me sinto. Em minhas conversas
imaginárias, sempre que me perguntam como eu estou, respondo algo do tipo:
-Não sei.
-Não sabe mesmo? Tente explicar.
-Eu sinto todos os sentimentos ruins do mundo ao mesmo tempo.
E não achei descrição melhor que essa. Sou nova, bonita, poderia ter um
futuro ótimo se quisesse, e mesmo assim passei um mês inteiro trancada em meu
apartamento. Não abro a porta da frente há um mês. Não olho para a janela há um
mês. Passei trinta dias indo do sofá para o quarto, do quarto para o banheiro,
do banheiro para a cozinha, e de volta para a sala. 720 horas vazias. Mas acho
que vou ter que sair qualquer hora dessas. Apesar de não estar comendo muito, a
comida está acabando. Sei que tenho que sair para comprar mais, mas não quero.
Ao mesmo tempo, não quero morrer.
É difícil ter esperança na vida quando ela já me deixou.
<3
ResponderExcluirComo já comentei uma vez, segue outro comentário:
ResponderExcluirGostei muito desse texto, achei bem trabalhado e escrito.
2 pontos importantes:
* Eu gostei dessa "jogada" de retrospectiva do passado que é narrada pela personagem, porém devemos ter muito cuidado com isto. É uma parte muito delicada, pois envolve uma atenção extra do leitor. Devemos deixar fluir naturalmente a entrada e a saída dessa retrospectiva(sinceramente, você mandou bem nessa parte).
* No texto você usou muitas frases curtas e parece que a personagem está com pressa ou aflita o tempo inteiro. Isso seria bom e ruim.
- BOM: Essa é uma boa imagem para passar, pois a personagem está passando por uma fase ruim e você pode realçar esses sentimentos.
- RUIM: Fica cansativo para o leitor.
Espero que tenha ajudado!
Menina sem nome: eu realmente quero saber seu nome, endereço, telefone, te beijar, abraçar e agradecer infinitamente. Obrigada, obrigada, obrigadaaaaaaa <3
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