quinta-feira, 4 de julho de 2013

De nosso para meu

Acendi um cigarro e voltei para minha cama. Ele me deixou há exato um mês.
O que, sejamos sinceros, é normal. Já perdi a conta de quantos homens me deixaram. E mulheres. Eu sou bem insuportável. Uma louca que não sabe o que quer da vida, não tem emprego fixo e muito menos algum limite.
Mas dessa vez foi diferente. Eu o amava. E ele nem ao menos falou comigo. Não disse seus motivos, não explicou o que estava acontecendo, não pediu desculpas. Essa foi a primeira vez que fui deixada sem explicação. Confesso que já fiz isso antes, fugir de alguém. Poucas vezes, mas fiz. Mas eu nunca havia isso deixada, no sentido literal da palavra.
Eu acordei e o dei um beijo de bom-dia. Tomei banho, fiz café e saí para trabalhar. Tinha arranjado um bico nessa época. Estava tentando me esforçar na vida para virar uma pessoa melhor. Talvez até conseguisse formar uma boa família se ambos nos esforçássemos. Enfim. Sai para trabalhar. Era garçonete em um restaurante perto de nosso apartamento. Era um lugar pobre e sujo, cheio de homens grotescos. Eu era cantada o tempo todo, e fui aconselhada pelo meu chefe a aguentar as apalpadas que ocasionalmente levava. Se eu reagisse, o cliente poderia se tornar agressivo e geraria uma confusão enorme. E, consequentemente, eu estaria no olho da rua, não importando se eu era a vítima com um hematoma roxo na bunda. Mas eu aguentava isso. Trabalhei lá por três meses.
E, nesse nosso último dia, não foi muito diferente. Fui apalpada por velhos sem dente e obrigada a sorrir –eu podia não ter uma vida boa, mas felizmente tinha meus dentes-, ouvi gritos, limpei a urina do banheiro –quando fui contratada não fui avisada que no fim do expediente teria que limpar uma coisinha ou outra. Nesse caso, urina-, a cerveja no chão e ajeitei as cadeiras. Dei um tchau para minha colega de trabalho –ela trabalhava no caixa do restaurante, e morria de dó de mim porque eu sofria bem mais que ela lá. E eu morria de dó dela porque ela era obrigada a trabalhar lá para cuidar do pai doente. É o que eu sempre digo: nascer em família pobre é um inferno-, para meu chefe e saí. Aproveitei para comprar comida para nós dois. Tínhamos o ritual de comer alguma porcaria todas as segundas feiras. Nessa, eu havia escolhido cachorro quente. Eu sempre adorei tradições, principalmente as tradições familiares. Faz parecer que todos são bem mais unidos do que realmente são. Exatamente por isso sugeri uma tradição para nós dois: comer algo não-saudável de janta todas as segundas-feiras. Era simples, gostoso, conseguíamos pagar e nos mantinha unidos.
Comprei dois cachorros quentes e duas latas de refrigerante. Estava feliz por estar fora do trabalho e cada vez mais perto dele. Meu lar era dentro de seus braços. E quanto mais ele me apertava, mais eu me sentia bem. Era a melhor sensação do mundo saber que eu tinha alguém que fazia com que eu me sentisse menos miserável.
Abri a porta do apartamento e tirei os sapatos.
-Cheguei!
Nada.
-Querido? Eu já cheguei.
Nada.
Nenhum som. Nenhuma bagunça na sala ou na cozinha. Fui andando de cômodo em cômodo (como se fossem muitos...) procurando sua presença. Mas não havia nada na sala. Nada na cozinha. Nada no banheiro. E só havia mais um cômodo. E eu não queria descobrir se ele também estava vazio. Voltei a vasculhar, na esperança de achar algum sinal. Mas o box do chuveiro estava seco e a tampa do vaso abaixada; A pia da cozinha estava limpa e não havia nada no lixo; A sala estava como eu havia deixado de manhã, sem nenhum calçado ou meia jogado.
Decidi que aquela era a hora da verdade. Só restava entrar em nosso quarto.
-Amor? Eu já cheguei...
E como eu já esperava: nada. A cama estava arrumada; Não havia nenhum desodorante ou perfume que o pertencesse na cômoda; Minha mala não estava mais embaixo da cama e sua parte no armário estava vazia.
Um mês depois, ainda não sei como me sinto. Em minhas conversas imaginárias, sempre que me perguntam como eu estou, respondo algo do tipo:
-Não sei.
-Não sabe mesmo? Tente explicar.
-Eu sinto todos os sentimentos ruins do mundo ao mesmo tempo.
E não achei descrição melhor que essa. Sou nova, bonita, poderia ter um futuro ótimo se quisesse, e mesmo assim passei um mês inteiro trancada em meu apartamento. Não abro a porta da frente há um mês. Não olho para a janela há um mês. Passei trinta dias indo do sofá para o quarto, do quarto para o banheiro, do banheiro para a cozinha, e de volta para a sala. 720 horas vazias. Mas acho que vou ter que sair qualquer hora dessas. Apesar de não estar comendo muito, a comida está acabando. Sei que tenho que sair para comprar mais, mas não quero. Ao mesmo tempo, não quero morrer.
É difícil ter esperança na vida quando ela já me deixou.

3 comentários:

  1. Como já comentei uma vez, segue outro comentário:
    Gostei muito desse texto, achei bem trabalhado e escrito.
    2 pontos importantes:

    * Eu gostei dessa "jogada" de retrospectiva do passado que é narrada pela personagem, porém devemos ter muito cuidado com isto. É uma parte muito delicada, pois envolve uma atenção extra do leitor. Devemos deixar fluir naturalmente a entrada e a saída dessa retrospectiva(sinceramente, você mandou bem nessa parte).

    * No texto você usou muitas frases curtas e parece que a personagem está com pressa ou aflita o tempo inteiro. Isso seria bom e ruim.
    - BOM: Essa é uma boa imagem para passar, pois a personagem está passando por uma fase ruim e você pode realçar esses sentimentos.
    - RUIM: Fica cansativo para o leitor.

    Espero que tenha ajudado!

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    1. Menina sem nome: eu realmente quero saber seu nome, endereço, telefone, te beijar, abraçar e agradecer infinitamente. Obrigada, obrigada, obrigadaaaaaaa <3

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