quarta-feira, 5 de dezembro de 2012

Era o quinto dia de Lara sem comida ou água. Os suprimentos que seu opressor entregara há dias já haviam acabado. Estava com fome e sede. Era provavelmente seu fim.
Clamava por um copo de água e um punhado de comida. Sentia a boca seca, e por mais que tentasse chorar de desespero, não conseguia.
Em todo aquele tempo mantida em cativeiro, nunca ficara tanto tempo sem ver seu opressor. Apesar de sumir por alguns dias, sempre deixara comida e água o suficiente para ela. Mas fazia tanto tempo que ela estava presa. Ele já havia envelhecido, então pode ter se esquecido. Mas será que alguém se esqueceria que sequestrou, estuporou, bateu e manteve a pessoa presa por anos e anos?
Lara, nessa greve de comida que não queria estar fazendo, cochilava e acordava a todo instante. Tentava cantar as vezes, mas a voz não saía. Se ainda tivesse o direito de usar o banheiro, coisa que perdeu em uma briga contra seu opressor, beberia água até do vaso sanitário se fosse preciso.
Deitada em sua cama, Lara pôs-se a lembrar de sua família. Seus pais, seus avós, seus amigos. Não lembrava mais do tom de voz deles, somente de algumas frases que costumam dizer em sua presença. Lembrava do "come mais, Lara. Cê tá tão magrinha" da avó, do "amigo de verdade a gente conta nos dedo, Lara" da mãe. Sua família não era formada. Sabiam ler e escrever o nome, mais nada. Exatamente por isso quiseram dar o melhor ensino possível para Lara. Imagine só o orgulho de ter uma filha que consegue escrever tudo! Enfim. Coisa que acabou depois do sequestro.
Augusto fora seu primeiro beijo, sua primeira transa, seu amante. E lembrar disso fazia com que a mulher sentisse nojo dela mesma. Seu único romance fora com seu sequestrador, seu estuprador...
Então Lara acordou mais fraca do que nunca. Não tentou levantar, não tentou juntar forças para lutar contra a morte. Simplesmente ficou deitada e esperou. Não tinha medo. Não tinha pressa. Achou até engraçado. Passara anos apanhando e sendo abusada, para então morrer de fome e sede.
Por fim, às 16 horas do dia 19 de novembro de 2028, depois de ter passado exatos 25 anos presa em um quarto sem ver o sol ou receber um abraço de sua mãe, Lara veio a falecer de desidratação.
A menina, agora mulher, que sofreu por 25 anos a solidão, o abuso e a tristeza, se foi. Quis ter um momento de descanso. Em breve sua família acharia o corpo. Em breve tentariam descobrir tudo o que havia acontecido no minúsculo quarto. Mas obviamente ninguém se importa com isso agora. O importante é que Lara teve finalmente seu descanso.

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