domingo, 6 de abril de 2014

Bru-na

Pediram-me que escrevesse sobre mim
mas eu não gosto de mim
Por que escreveria sobre coisas que não gosto?
Deitei e pensei
"Como é triste não gostar de mim
além do mais
será que eu mereço um poema?"
Não sei se mereço um poema
Minha cara quadrada e meus dentes tortos dizem que não
a pinta que na verdade é uma verruga diz que não
meu desespero e minha ansiedade dizem que não
e meu descontrole já quebrou algumas coisas enquanto gritava que não
Mas lá no fundo, bem no fundinho, eu escuto
"Você merece sim
seus olhões dizem que sim
e seu coração anseia por isso
por um pouquinho de amor próprio"
Então talvez (na verdade, com certeza) minha escrita não seja muito boa
e minha cabeça seja um pouco louca
e minha aparência com certeza não é das melhores
mas acho que todo mundo merece um poema
por mais simples que ele seja

terça-feira, 17 de dezembro de 2013

Jantar

Abriu a porta do quarto assim que ouviu a mãe gritando por ela. Como o tom de voz não era sério, passou primeiro na cozinha para beber um copo de água e pegou outro para a mãe antes de ir até o quarto dos pais.
-Oi, mãe.
-Você viu meu brinco de pérola, filha? Não acho em lugar algum.
-Vi sim, mãe. Na sua orelha.
-Na minha orelha? -Colocou a mão na orelha e percebeu que estava mesmo com os brincos que tanto procurou-. Devo estar  ficando louca. De qualquer forma,  feche o zíper do meu vestido, por favor.
A menina fechou e se sentou na cama observando a mãe se arrumar. O pai ainda estava no banho, e seu terno preto estava em cima da cama. Não tendo muito o que fazer, deitou-se na cama e ficou olhando o teto, somente pensando.
-Renata? Você está ouvindo, meu bem?
-Agora sim, mãe. Desculpa.
-Seu pai e eu voltaremos de madrugada, não nos espere. Se tudo der certo nós voltamos de lá com seu pai ganhando cinquenta mil por mês. Ai meu Deus, acho que vou vomitar. Como eu estou?
-Linda, mãe. Fica tranquila. É só sorrir, ser simpática e elogiar as esposas de todos eles.
-O dinheiro está na mesa da sala, pode pedir qualquer coisa que queira. E nada de festas ou garotos aqui em casa.
-Combinado. Mas posso chamar a Carla pra vir aqui? Só pra uma pizza e um filme.
-Claro, claro. Juízo e torça por nós, meu bem.
Renata se despediu dos pais desejando boa sorte no jantar da empresa antes de ligar para sua amiga, que logo chegaria. Ficou deitada no sofá da sala procurando algum filme bom: não achou. Quando a campainha tocou, a menina deu um pulo e correu para abrir a porta, e, em não muito tempo, ambas estavam esparramadas no sofá assistindo a um romance que Carla trouxera. Escolher um sabor de pizza foi complicado, mas logo resolvido, e, enquanto a comida não chegava, continuaram juntas no sofá, sem prestar atenção alguma no filme. Até que ouviram um barulho na cozinha, como se alguém tivesse tropeçado nas cadeiras.
-Você não disse que estava sozinha?
-Mas eu tô, Ca. Só nós duas aqui.
-Você não quer ir lá conferir?
-Mas nem morta.
-Por favor...
-Aaarg. Tá bom. 
E Renata foi. Passos pequenos e silenciosos para conferir se a solidão das duas era exata ou não. Pé ante pé. A cada passo, mais ela se assustava. Começara a suar e a adquirir um rosto infantil e amedrontado. Até que uma buzina tocou do lado de fora da casa.
-A pizza!
Ah, o alívio. O abençoado e delicioso alívio percorrendo todo o seu corpo que relaxava.
-Eu busco, Ca. Pode ficar aí que tá tudo bem -deu um abraço e um beijo em Carla, pegou o dinheiro que estava na mesa e abriu a porta se sentindo estranhamente leve-. Boa-noite, moço. Trinta e cinco, né?
Foi tudo muito rápido. Renata ouviu um grito horroroso de Carla logo após um barulho extremamente alto que não conseguiu identificar, e pulou para trás para ver o que estava acontecendo. Viu um homem grande e com capuz no corredor, e ao seus pés estava Carla deitada em uma posição torta. Havia sangue. Muito sangue. Havia sangue na camisa de Carla, sangue esse que escorria por todo o chão ao seu redor. 
Renata gritou. Num instinto, tentou correr, porém o entregador agarrou seus cabelos antes que conseguisse pensar em algo para se fazer.
-O DINHEIRO, PORRA! CADÊ A PORRA DO DINHEIRO?
Dinheiro? Quem pensaria em dinheiro com Carla morrendo no chão? Que se dane o dinheiro, pelo amor de Deus. Soltou-se das mãos do homem depois de muito custo e jogou-se no corpo da menina.
-Por favor, não morre, não morre, não morre. Eu te amo tanto, não me deixa, não me deixa, não me deixAH!
Era tarde demais. O invasor da cozinha atirou em Renata. Não havia nenhum sentimento no olhar do assassino. Duas jovens mortas em seus pés e ele não se importou. Só queria saber do dinheiro.
Como estavam em um bairro nobre, tiveram que se apressar. Polícia não tarda a chegar para ajudar gente rica, e isso eles aprenderam desde cedo. Pegaram dinheiro e algumas joias pois fora isso não havia mais nada de valioso. E correram. Muito. Fugiram o mais depressa que podiam com medo de serem presos.
Mas, ao contrário do que imaginavam, nenhum vizinho ligou para a polícia. Ninguém se importou com gritos e barulhos de tiros, estavam todos ocupados em seus mundos.
Então foi uma enorme surpresa quando os pais de Renata chegaram de madrugada comemorando o escritório particular e o aumento salarial e encontraram o corpo da filha caído sobre o da amiga.

segunda-feira, 9 de setembro de 2013

Lá

Leandro simplesmente apareceu lá. Não fora para aquele lugar porque queria. Muito menos acordou lá. Em um segundo estava no carro (estava conversando com alguém no celular, disso se lembrava. Só não sabia com quem), e, no outro, lá.
Não sabia onde o lá era. Não sabia nada sobre o lá. Fora parar ali como que em um passe de mágica e estava sentado em um chão feito de pedras cinza. O lá era um corredor preto iluminado com tochas na parede.
-Mas que lugar é esse, meu Deus?
Levantou-se do chão e pegou uma tocha, só por precaução. Não sabia se ia para a direita ou esquerda do corredor. Passou uns belos minutos virando o rosto tentando achar uma resposta. Por fim, decidiu i para a esquerda.
Não andou por muito tempo. Parou assim que ouviu uma voz.
-Eu vim desse lado. Não tem nada, não.
Era uma mulher. Baixa, loira e feia, mas  tinha uma aparência tão simpática que Leandro automaticamente se afeiçoou a ela. Parecia cansada e triste, mas nada a impedia de seguir em frente e achar o fim do corredor. Andaram em silêncio por bastante tempo em completo silêncio, até que por fim a mulher se pronunciou.
-Eu eestava voltando para casa, sabe?tinha ido para a igreja. Estava caminhando tranquilamente, e quando virei a esquina... ela virou esse corredor.
-Eu sei. Foi assim comigo também.
Continuaram andando. Percorreram longos quilômetros até começarem a ouvir vozes.
-Esse é MEU!
-Mas, veja bem. Ele se arrependeu.
-Não importa. Você sabe que é pura conversa dele. Você não pode estuprar alguém e ir para o céu.
-Nomes? –disse uma voz bem a frente deles. Estavam tão atordoados com a conversa que nem aso menos perceberam a existência de um portão e uma pessoa-. Nomes? Ah, tudo bem. Entrem.
OS portões –enormes, duas vezes a altura de um homem alto, e de ouro- se abriram e eles entraram.
Era uma sala imensa. As paredes eram todas de ouro e –de novo- iluminadas por tochas. Era ocupada por bancos de madeira, e na parte principal havia cadeiras altas e decoradas. Havia centenas de pessoas nos bancos, todas quietas e com olhares profundos.
Na cadeira principal havia um homem velho, de cabelos compridos e barba branca. Ao seu lado havia um elegante homem de terno preto. Magro, alto, jovem e bonito. Do lado deles havia mais um homem, mas ele era comum e simples. Um desses homens que se vê quando se anda na rua.
-Vocês. Aqui no banco da frente, por favor –disse o homem comum-. Hmm... Não, melhor não. Aqui, de pé. Na minha frente, depressa.
-Nomes? –disse o homem velho. Sua voz era grave e extremamente alta.
O homem comum verificou seus papeis por um momento antes de falar.
-Leandro de Assis e Carolina Mendes, Senhor.
-Causa da morte?
-Morte? Oi? -disse Leandro, que foi completamente ignorado.
-Acidente de carro. Olhe só, que coisa. Carolina estava voltando a pé da igreja e foi atropelada por Leandro, que estava falando no celular. Ele morreu na hora, mas ela agonizou por alguns minutos antes de morrer. Pelo o que vejo aqui, a deixamos inconsciente, Senhor, pois não merecia sofrer.
-Eu sabia que celular era uma péssima ideia, mas hoje em dia ninguém mais me escuta. E sobre ela?
-Ótima mulher. Temente a Ti, cuidava da família, ajudava a todos que podia. Nunca roubou, matou, traiu e sempre quis o bem geral. Não há dúvidas sobre a sentença de nenhum dos dois.
-Um a um, então? –disse o jovem elegante.
-Temo que sim. Dessa vez não há escolha.
Leandro se assustou, principalmente quando viu Carolina sendo levada para outro portão perto do homem velho.
-Mas e eu? E eu? O que está acontecendo? Por favor, me expliquem!
-Você morreu –disse o homem comum-. Morreu e matou uma moça com um grande futuro pela frente. E por isso vai para o inferno.
-NÃO! Deus? Ajude-me, Deus. Por favor.
-Você fez suas escolhas, filho. Teve uma longa e ótima vida, e nunca se lembrou de mim. Nunca agradeceu sua vida, a vida de seus queridos ou alguém bem que conseguiu. E, depois de me desprezar por toda a sua vida, matou uma pessoa. Eu sinto muito, meu filho, muito mesmo. Mas você fez suas escolhas. Guardas? Levem-no.
-Mas, e o arrependimento? Eu não tive tempo de me arrepender! Eu me arrependeria de tudo, meu Deus!
-Cometer erros imaginando que está tudo bem porque no final haverá o perdão é uma das piores coisas que alguém pode fazer. Próximo?
-Lara de Holanda, Senhor.
-Causa da morte?
-Fome e desidratação. A garota foi sequestrada e morreu vinte anos mais tarde, ainda refém. Não há dúvidas, Senhor.
-Droga! –disse o jovem elegante.
-Posso perguntar mais uma coisinha?
-Diga, filho.
-Se ele é o Diabo, por que é tão jovem e bonito?
-Nós nos transformamos em qualquer coisa. Muitos pensam que eu sou assim –e dizendo isso se transformou em uma coisa vermelha, monstruosa, e com chifres- ou assim –dessa vez se transformou em uma mulher nua. Os cabelos compridos escondiam os bicos dos seios, mas ainda era uma mulher extremamente sensual, com olhos que mostravam puro desejo-, e na verdade eu sou várias coisas. Tudo depende de qual é o maior medo ou ambição da pessoa. ,as normalmente eu sou assim: um homem que acabou de se transformar em um adulto, rico, educado, elegante e bonito. As pessoas não esperam maldade das coisas bonitas. E é tão mais fácil seduzir uma alma assim. Você mesmo caiu no meu truque. Esse homem que sou é tudo que você sempre quis ser.
-Então... Por que você não faz isso também, Deus? Transformar-se em alguém jovem e bonito para conquistar mais almas?
-Eu gosto das almas verdadeiras. Gosto de quem merece e conquista o céu. Seria fácil demais, Leandro. Certas coisas merecem ser conquistadas.
E sendo esse o fim da conversa, dois guardas o pegaram pelos braços.
-Não precisa. Eu vou sozinho.
Mas não adiantou: continuou sendo puxado. Leandro caminhou para sua última casa, e nessa caminhada observou as pessoas do banco. Com exceção de sete pessoas, todas estavam tristes, pálidas e com rostos sérios. Não conhecia ninguém de lá.
Os guardas abriram os portões pretos e o empurraram. Era um corredor todo preto, e quanto mais andavam, mais quente ficava. Quando pensou que fosse derreter, os guardas o pararam.
-Chegamos. Boa-sorte. Você vai precisar.
Empurraram-no para dentro, e então teve a certeza de que derreteria. O inferno era cheio de fogo, sim, mas não havia pessoas queimando.  Eles estavam presos em um círculo de fogo.
-Qual seu nome?
-Eu... não sei.
Pouco a pouco foi se esquecendo de quem era e porque estava ali. Sabia que iria apanhar, ver alguma cena que ainda o deixaria horrorizado e apanharia mais. Era a rotina daquele lugar.
Talvez ser queimado pela eternidade era melhor do que as torturas que sofria e era obrigado a ver.

Um dia, sem ao menos se lembrar de que era, pensou: “Vou ser o primeiro a fugir daqui”.


N.A.: Esse texto é meio velho e eu nunca postei por vergonha, nem sei ao menos de quê. Só resolvi postar porque o coitado do blog tá hiper parado. Vamos resumir  com: tá difícil pra caralho conseguir escrever esses tempos. É isso. Beijoca. 

quinta-feira, 1 de agosto de 2013

Outro lado

Eu a amava. No começo nos esforçávamos para tudo dar certo, então era perfeito. Tentamos largar nossos vícios (mas eu sei que ela fumava escondida ainda assim) e trabalhar. Pensávamos até em formarmos uma família. Nós dois e um belo menininho. Se desse certo, uma filha também, mas dependeria das nossas condições.
Ela começou a trabalhar de garçonete, e eu era vendedor em uma loja barata de móveis. Lá, por dois mil reais você conseguiria mobiliar quase sua casa inteira. Claro que em poucos meses você teria que comprar tudo novamente, já que o sofá se quebrava com o peso de uma pena, mas não vem ao caso.
Eu queria ter uma vida feliz com ela. Queria a fazer feliz e ser feliz ao lado dela. Mas era simplesmente impossível. Ela era louca, completamente doente. Chorava o tempo inteiro, reclamava de tudo, não conseguia ver o lado bom nem das coisas boas. E eu achei que pudesse consertá-la. Mas não havia nada de errado para ser consertado: ela era assim. Eu passava horas acariciando seu cabelo, tentando fazê-la parar de chorar e finalmente dormir, enquanto minha roupa de encharcava com suas lágrimas. Comprava flores, livros, roupas, mas nada a animava. E quando apareci com um cartão de uma terapeuta, falando que pagaria uma consulta para ela, gritou como se estivesse apanhando até a morte. Quase não tínhamos mais copos e pratos. Em momentos de ódio, quebrava todos jogando-os na parede ou no chão. Eu sei que ela se esforçava para vivermos bem e formamos uma família, mas simplesmente não adiantava. Ela tentou mudar por nós, mas nunca tentou mudar por ela. Eu sei amor, mas não era o que ela precisava. O que ela realmente precisava era se amar e se conhecer. Coisa que, nesse nosso tempo juntos, nunca aconteceu.
Ela se degradou cada vez mais. Mas eu insisti. Fiquei com ela, cuidei dela. Mas, vendo-a completamente louca, a paixão foi embora. Eu não estava mais apaixonado. Estava com dó. Quando ela dizia que me amava, eu só a beijava. Quando ela falava que eu era tudo que ela tinha, eu ria. Não havia restado a menor fagulha de amor ou paixão por ela. E ela sabia disso. Era algo obvio de se observar.
Então ela desistiu de mim. Não prometeu melhorar nunca mais, e não se importava se estava me (ou se) deixando mal. E eu desisti dela. Não fazíamos mais amor: transávamos por puta rotina. Ainda nos tratávamos, em raros momentos, de forma extremamente carinhosa, mas não havia mais brilho nenhum.
E um dia, depois de uma foda horrorosa, eu decidi que era minha hora de ir. Dormimos, e no dia seguinte, acordamos juntos. Fingi que estava dormindo, e quando ela saiu, peguei minhas roupas e as coloquei em sacolas de mercado. E fui embora. Sem dizer adeus, sem me explicar. Sei que foi horrível de minha parte. Sei que ela ainda sofre. Mas foi necessário. Viver daquela maneira era mil vezes pior.

terça-feira, 23 de julho de 2013

Oi

Olá. Tudo bem? Sumiu ontem. Foi embora enquanto eu dormia e nem se despediu. E agora não quis nem me cumprimentar. Chegou de repente e se instalou tão rápido que nem reparei.
Aceita um chá enquanto me destrói completamente? Ou prefere me degradar enquanto preparo torradas?
Gosto de visitas, mas minha mãe me ensinou que há um limite, e creio que a senhora está ultrapassando ele. Não prefere vir outra hora, dona tristeza? Algum momento que você tenha motivos para aparecer, talvez. Não está me deixando ler. Queria tanto ler em paz. Posso ler meu livro quietinha? Enquanto isso a senhora visita um outro alguém, dona tristeza. Visitar-me toda noite não a cansa? Pois a mim sim.


Esse é antiguinho (segundo o iPod, 22/12/12) e eu nem lembrava que existia. Mas o achei perdido por aí e resolvi postar porque achei até que fofo.

quinta-feira, 18 de julho de 2013

Doença

Tudo começou quando eu tinha quinze anos. Festas todos os finais de semana e a maior beijação. Menos, é claro, para mim.
Eu era amiga das pessoas legais. Eu os via bêbados, drogados, e beijando –as vezes bem mais do que beijar, e em público mesmo- praticamente todo mundo. Meus amigos sóbrios eram bem rigorosos no quesito beleza, mas depois de uma ou duas carreirinhas, o padrão caía bastante. E eu estava sempre sentada rindo deles ou mexendo no celular. Eu era a amiga feia. Quem iria querer a menina gorda dos dentes separados? Ninguém. Nem mesmo alguém cheirado. Eu era a gordinha engraçada, vista como o irmão dos meninos e alguém que nunca seria uma possível ameaça das meninas.
Até que um dia, em uma dessas festas, fiquei extremamente triste por ser gorda, feia e rejeitada, e tomei a decisão que mudaria minha vida: eu emagreceria. Mal cheguei em casa e joguei fora tudo que poderia estragar minha dieta: barras de chocolate, bombons, bolachas, doces diversos e salgadinhos. Passei a comer quilos e mais quilos de salada e a frequentar a academia. Ralei um mês inteiro. Estava me sentindo linda e magra, até que resolvi me pesar: dois quilos a mais. Chorei até não conseguir mais chorar. E foi aí que aconteceu. Eu parei de comer.
Nos primeiros dois dias quase me matei. Devo ter tomado uns oito livros de água, e nada de matar a fome. Cada vez que dormia, acordava com mais fome. Tentei absolutamente tudo, mas nada conseguia me distrair para esquecê-la.
Só consegui dois dias. Comi no terceiro. Comi como nunca havia comido. Não parava para respirar e nem ao menos sentia ao gosto. Mastigava o suficiente para não morrer engasgada e engolia. Comi tanta coisa diferente ao mesmo tempo que não consigo me lembrar o que era.
Quando finalmente me senti satisfeita, chorei. Dois dias de esforço para absolutamente nada. Eu era um lixo. Fraca, incompetente. Dois dias de luta se acabaram em vinte minutos. Eu me sentia o pior ser vivo da Terra. Quando parei de chorar, fiz a coisa que mais me parecia obvia: me tranquei no banheiro e enfiei um dedo na garganta. Coloquei o dedão bem lá no fundo e prendi meu rosto com o indicador, só para garantir que eu não desistiria de novo. Demorou e eu sofri, mas quando finalmente terminei, me senti bem. Ótima, na verdade.
E essa acabou virando minha rotina. Não comia nunca, e quando comia, vomitava. Fui me acostumando, e depois de um tempo o jejum e os vômitos começaram a parecer agradáveis e amigáveis.
Fui emagrecendo cada vez mais. Quando descobri que o cigarro e a cocaína emagreciam, passei a usá-los. A cocaína eu usava muito pouca, era extremamente raro. Mas fumava quase dois maços de cigarro por dia e comia quatro ou cinco refeições por semana. Tudo em nome da beleza.
Eu fiquei linda. Estava magérrima, e agora usava todas as roupas que queria. Não me importava com o frio, vento ou chuva: usava roupas curtas e apertadas para mostrar o como eu era linda.
Meu peso já não era mais um problema, e meus dentes se tornaram um charme. Eu era linda, magra e disputada por todos os homens. Minhas amigas se tornaram mais amigas por eu estar cada vez mais parecida com elas. Éramos gêmeas da beleza.
E aí eu piorei.  Nem quando eu queria conseguia comer. Desmaiava cada vez mais, fumava e cheirava cada vez mais.
Hoje estou em uma clínica. Não vejo mais minhas amigas, mas sinto falta delas. Sei que estão aproveitando por mim. Meus pais estão completamente loucos de tanto desespero. Minha única preocupação no momento é se vou perder minha beleza. Não me esforcei tanto para recuperar todos os meus quilos. Mas conheci pessoas legais aqui. Não gosto de todo mundo, mas encontrei meninas iguais a mim. Vou ficar aqui por um bom tempo ainda. Não quero sair daqui gorda, tenho medo disso. Entrei tão linda.


segunda-feira, 15 de julho de 2013

Ninguém disse que seria fácil

Juras de amor escritas em um guardanapo. Noites mal dormidas e manhãs de desespero. Porres catastróficos para esquecê-la. Lágrimas perdidas e coração destroçado. Não sentir seu toque quando conversavam. Não saber como era a textura de sua pele. Não saber o gosto de seus lábios, não poder contornar as curvas de seu corpo com as mãos e a boca. Vê-la com outro, sorrindo e gargalhando. Vê-la beijando uma boca que não era sua, apertando mãos que não o pertenciam, chamando um nome que não era seu. Saber que ela desejava um corpo que não era seu, que ela acordava em uma cama que não era a sua. Sentia-se o maior dos covardes por não ter se declarado, mas sabia que de nada adiantaria. Não sentia inveja do outro. Muito menos ódio. Só queria ser o outro. Queria estar na vida dela. 



Ps: Não gostei muito, ble. Mas só pra manter aqui atualizado, mesmo.

quinta-feira, 4 de julho de 2013

De nosso para meu

Acendi um cigarro e voltei para minha cama. Ele me deixou há exato um mês.
O que, sejamos sinceros, é normal. Já perdi a conta de quantos homens me deixaram. E mulheres. Eu sou bem insuportável. Uma louca que não sabe o que quer da vida, não tem emprego fixo e muito menos algum limite.
Mas dessa vez foi diferente. Eu o amava. E ele nem ao menos falou comigo. Não disse seus motivos, não explicou o que estava acontecendo, não pediu desculpas. Essa foi a primeira vez que fui deixada sem explicação. Confesso que já fiz isso antes, fugir de alguém. Poucas vezes, mas fiz. Mas eu nunca havia isso deixada, no sentido literal da palavra.
Eu acordei e o dei um beijo de bom-dia. Tomei banho, fiz café e saí para trabalhar. Tinha arranjado um bico nessa época. Estava tentando me esforçar na vida para virar uma pessoa melhor. Talvez até conseguisse formar uma boa família se ambos nos esforçássemos. Enfim. Sai para trabalhar. Era garçonete em um restaurante perto de nosso apartamento. Era um lugar pobre e sujo, cheio de homens grotescos. Eu era cantada o tempo todo, e fui aconselhada pelo meu chefe a aguentar as apalpadas que ocasionalmente levava. Se eu reagisse, o cliente poderia se tornar agressivo e geraria uma confusão enorme. E, consequentemente, eu estaria no olho da rua, não importando se eu era a vítima com um hematoma roxo na bunda. Mas eu aguentava isso. Trabalhei lá por três meses.
E, nesse nosso último dia, não foi muito diferente. Fui apalpada por velhos sem dente e obrigada a sorrir –eu podia não ter uma vida boa, mas felizmente tinha meus dentes-, ouvi gritos, limpei a urina do banheiro –quando fui contratada não fui avisada que no fim do expediente teria que limpar uma coisinha ou outra. Nesse caso, urina-, a cerveja no chão e ajeitei as cadeiras. Dei um tchau para minha colega de trabalho –ela trabalhava no caixa do restaurante, e morria de dó de mim porque eu sofria bem mais que ela lá. E eu morria de dó dela porque ela era obrigada a trabalhar lá para cuidar do pai doente. É o que eu sempre digo: nascer em família pobre é um inferno-, para meu chefe e saí. Aproveitei para comprar comida para nós dois. Tínhamos o ritual de comer alguma porcaria todas as segundas feiras. Nessa, eu havia escolhido cachorro quente. Eu sempre adorei tradições, principalmente as tradições familiares. Faz parecer que todos são bem mais unidos do que realmente são. Exatamente por isso sugeri uma tradição para nós dois: comer algo não-saudável de janta todas as segundas-feiras. Era simples, gostoso, conseguíamos pagar e nos mantinha unidos.
Comprei dois cachorros quentes e duas latas de refrigerante. Estava feliz por estar fora do trabalho e cada vez mais perto dele. Meu lar era dentro de seus braços. E quanto mais ele me apertava, mais eu me sentia bem. Era a melhor sensação do mundo saber que eu tinha alguém que fazia com que eu me sentisse menos miserável.
Abri a porta do apartamento e tirei os sapatos.
-Cheguei!
Nada.
-Querido? Eu já cheguei.
Nada.
Nenhum som. Nenhuma bagunça na sala ou na cozinha. Fui andando de cômodo em cômodo (como se fossem muitos...) procurando sua presença. Mas não havia nada na sala. Nada na cozinha. Nada no banheiro. E só havia mais um cômodo. E eu não queria descobrir se ele também estava vazio. Voltei a vasculhar, na esperança de achar algum sinal. Mas o box do chuveiro estava seco e a tampa do vaso abaixada; A pia da cozinha estava limpa e não havia nada no lixo; A sala estava como eu havia deixado de manhã, sem nenhum calçado ou meia jogado.
Decidi que aquela era a hora da verdade. Só restava entrar em nosso quarto.
-Amor? Eu já cheguei...
E como eu já esperava: nada. A cama estava arrumada; Não havia nenhum desodorante ou perfume que o pertencesse na cômoda; Minha mala não estava mais embaixo da cama e sua parte no armário estava vazia.
Um mês depois, ainda não sei como me sinto. Em minhas conversas imaginárias, sempre que me perguntam como eu estou, respondo algo do tipo:
-Não sei.
-Não sabe mesmo? Tente explicar.
-Eu sinto todos os sentimentos ruins do mundo ao mesmo tempo.
E não achei descrição melhor que essa. Sou nova, bonita, poderia ter um futuro ótimo se quisesse, e mesmo assim passei um mês inteiro trancada em meu apartamento. Não abro a porta da frente há um mês. Não olho para a janela há um mês. Passei trinta dias indo do sofá para o quarto, do quarto para o banheiro, do banheiro para a cozinha, e de volta para a sala. 720 horas vazias. Mas acho que vou ter que sair qualquer hora dessas. Apesar de não estar comendo muito, a comida está acabando. Sei que tenho que sair para comprar mais, mas não quero. Ao mesmo tempo, não quero morrer.
É difícil ter esperança na vida quando ela já me deixou.

quarta-feira, 3 de julho de 2013

Insanidade

Eles estão atrás de mim. Não sei quem são, muito menos o que querem, mas eles estão atrás de mim. Ouço vozes e vozes em minha cabeça e não sei quem está falando. Não entendo tudo o que dizem. É uma mistura completa. Confusa, maligna, mortal.
Vejo sombras, ouço passos e conversas, mas não há absolutamente ninguém quando me viro. Uma voz masculina grita. A feminina ri um riso estridente que me traz enjoos e vontade de morrer.
Mais passos atrás de mim. Quando me viro, a cozinha está vazia. De novo. Mas dessa vez vejo uma sombra se movendo, como que na tentativa de fugir de meu campo de visão. Tento ver o dono da sombra, mas fico apenas girando em volta de mim mesmo. As sombras e as vozes estão lá, mas não pertencem à ninguém.
Grito um grito desesperado, cheio de ódio e medo. Arranco um ou dois punhados de cabelo e grito novamente. Após alguns segundos de reflexão decido que um banho acalmará meus nervos.
No chuveiro, nada melhora. Na realidade, as coisas pioram. Vozes se intercalaram para conversar e me xingar. No começo são apenas duas, mas mais pessoas se juntam para acabarem comigo. Falam cada vez mais alto, até chegarem ao ponto de grito. Fecho as mãos e coloco em meu rosto em completo desespero. Eu não sei o que querem comigo. Não sei o que fazer. Eu não aguento mais.




(Inspirado em: http://medob.blogspot.com.br/2013/05/esquizofrenia-voce-aguentaria.html)

quarta-feira, 26 de junho de 2013

Adeus

Essa é a história de como eu morri.
Para ser sincero, ainda estou vivo. Mas não por muito tempo. Para resumir, estou em uma nave neste exato momento. E digamos que não estou vendo estrelas ou algum planeta. Não estou maravilhado com a vista e muito menos exaltando a grandiosidade do universo. Estou olhando para um asteroide três vezes maior que minha nave e pensando como queria ser outra pessoa. Qualquer um.
Tenho provavelmente dez minutos restantes de vida. Tento pensar que estou salvando a Terra e provavelmente vou para o céu por estar sendo tão bonzinho, mas não consigo manter essa linha de pensamento por mais de três segundos. É difícil não pensar na morte quando se está vendo seu rosto.
Eu queria gritar e dar um completo escândalo. Ninguém me avisou que eu morreria. Sei que minha morte será rápida. Não devo sofrer nenhuma dor física, mas no momento a psicológica está acabando comigo. Pelo amor de Deus! Eu não sabia que morreria sozinho do espaço. E nem ao menos me despedi de minha família. Minha filha, minha esposa, meus pais. Eu sempre me imaginei morrendo velho, aposentado (mas não parado) e com vários netos. Não me imaginei morrendo em uma missão. Não fazia a menor ideia de que morreria aqui. Ninguém me comunicou isso.
Pelo menos eu vou para o Paraíso. E se não for para lá, vou para o Purgatório. Seria uma grande e horrível brincadeira de Deus se eu morresse para salvar um planeta inteiro e fosse para o inferno.
Não consigo parar de tremer. Essa coisa está se aproximando cada vez mais. Agora eu consigo gritar. Não que eu quisesse, mas simplesmente percebi que estava gritando no meio do ato.
Vão comemorar minha morte. Tudo isso explodirá como fogos de artifício -EU explodirei como fogos de artifício- e vão comemorar. Eu sempre pensei que fosse mais forte que isso.
Estou em completo desespero. Nunca me descontrolei tanto em toda a minha vida. Estou encharcado de suor. Minhas mãos completamente sem rumo tentam se agarrar a alguma -a qualquer coisa-. Acabo me machucando, e só percebo quando vejo sangue em minhas unhas. Apertei meu braço forte demais e nem ao menos reparei isso.
Fiz um último sinal da cruz, mais por costume do que por fé e fechei os olhos. Sei que não me resta mais nada. Inspiro profundamente o último ar que me resta.
Eu acabei de salvar sua vida, leitor. Agora, adeus.

terça-feira, 21 de maio de 2013

Desabafo

Minha mãe costuma dizer que tenho a mente aberta demais. Sou a favor de coisas que ela nunca seria capaz de aceitar: casamento homossexual, a (quase) completa liberdade, aborto, feminismo. Ela, na verdade, diz que eu deveria lavar mais louças ao invés de tentar espalhar minhas ideias feministas (coisa que faço bastante) pelo mundo.
Tentei colocar em prática a sugestão de minha progenitora. Tentei ficar quieta e ver o rumo que a vida tomaria sem minha intervenção. E acho que não preciso dizer que não gostei desse tal rumo. Do contrário, esse texto não existiria.
Sei que há pessoas que não toleram certas atitudes e pensamentos; afinal temos a liberdade de escolha e gosto. Mas, o que eu realmente não entendo, é a falta de respeito e a intolerância que tenho visto.
Esses dias ouvi algo que me deixou extremamente irritada e perturbada: "sou super tolerante com gays. Tenho até um colega que é e ele é superlegal. Mas não é natural. É errado. Eu não seria, sabe? Mas sou super tolerante".
Eu, essa mera escritora clamando por um pouco de respeito, também não seria. Creio que não se pode escolher sua sexualidade (e se eu estiver errada, imploro perdão) em um momento. Não imagino alguém sentado no sofá pensando "hoje o dia tá tão chato que vou até parar de ser gay". Enfim. Não é porque você é hétero que tem o direito de a repudiar gays.
E é exatamente isso que acho que todos deveriam entender: o pensamento "eu não sou, então deve ser errado" é uma das piores ideias que alguém pode ter. Você não precisa ser gay para apoiar o casamento gay, não precisa ser mulher para apoiar o feminismo. Só precisa ter um pouquinho de cabeça e pensar nos outros.
Quanto mais eu ouço que não preciso tentar mudar o mundo com minhas ideias, mais vejo que preciso continuar a espalhar esses pensamentos. Se você é contra uma opinião, um determinado tipo de pessoa, uma religião, por favor: não seja. Só respeite e tente se alegrar por outras pessoas estarem felizes.
"Mais amor, por favor"  


(Um pouco diferente do que costumo postar aqui, mas me agradou. Espero que pelo menos uma pessoa no mundo pense em certas atitudes depois de ter lido, espero não ter escrito em vão. Sei que o blog está meio abandonado, mas não desisti dele. A escola e meus irmãos têm me cansado um pouco, mas nada que me faça desistir. Obrigada pela atenção)

sábado, 2 de fevereiro de 2013

Pessimismo

Decidiu olhar para o mundo como ele é. E se decepcionou.
Decepcionou-se com tudo. Percebeu as mentiras, a falsidade. Percebeu a ganância, o conformismo, a hipocrisia, o preconceito. Foi se deprimindo.
Viu que não tinha amigos para confiar ou alguém para amar completamente. Mas depois foi se esquecendo: percebeu que há problemas maiores.
Sofrer. Olhar, sentir e sofrer. Sofrer cada vez mais. Se desesperar com os próprios problemas, com os problemas dos conhecidos, com os problemas desconhecidos de pessoas que não fazia ideia da existência.
Chorar, dormir, acordar, lembrar-se do sofrimento e chorar. Por mais que tentasse, não conseguia melhorar.  Por mais que se esforçasse, o mundo parecia um lugar frio e cruel, cheio de injustiça e solidão.
Então, o fim.

segunda-feira, 21 de janeiro de 2013

You had me at hello

São três da manhã e eu, sem muito o que fazer, comecei a pensar em você. Em seu rosto, seus olhos, sua boca, suas costas, seus calos nos dedos de tanto tocar baixo. Em seu sorriso, em você gritando "ai!" pra assustar alguém. Pensei em como você é quando se sente feliz, quando se sente triste.
Eu, que sempre fui estúpida e grosseira, sinto-me em um livro de poesias. Apaixonando-me novamente a cada dia que passa. Apaixonar-me por cada detalhe diferente.
São três da manhã e estou me sentindo mais feliz do que me senti durante horas, apesar de estar sozinha em meu quarto. Lembranças de um -vários- beijos. Todos seguidos de um sorriso mostrando os dentes. Lembranças do toque, do olhar, do cheiro.
São três e quinze da manhã e cá estou eu pensando em como é possível me apaixonar todos os dias pela mesma pessoa.

domingo, 6 de janeiro de 2013


Gosto de amar do meu jeito. Amar desesperadamente, desenfreadamente.
Amar.
Amar sem limites, com muito drama, sofrimento, desejo.
Amar você inteiramente. Ser teu pão, ser tua comida, todo amor que houver nessa vida. E algum trocado pra dar garantia.
Gosto de amar assim. Você, eu e a vida.
Nós dois, matando a sede na saliva, corpo explodindo de desejo.
Gosto de amar assim. Com todo amor que houver nessa vida.
Gigia pediu pra fazer um texto inspirado em Todo amor que houver nessa vida. Tentei.

sábado, 29 de dezembro de 2012

Duplo lamento

Não era recíproco, mas eu o amava.
Eu sempre havia sido a terceira, quarta, última opção. E nesses tempos de bebedeira, eu era a única boba que atendia o celular às três da manhã. Eu era a única boba que aguentava os gritos e os lamentos de um bêbado degradado. Era a única que aguentava as brigas no bar. Em troca, ganhava alguns beijos sem sentimento, uma fodinha horrorosa e um sorriso tristonho. Logo após esses prêmios maravilhosos, ele virava e dormia o sono dos bêbados.
Enquanto isso, já deixava separado um copo de água, alguns comprimidos para dor de cabeça e muito amor.
Sabia que nunca ganharia nada em troca, que nunca teria seu amor. Então, eu simplesmente cuidava dele. Acalmava sua mente o suficiente para que ele caísse no sono, e acariciava seu cabelo, mesmo sabendo que em sua cabeça os pensamentos eram dedicados para outra. Se ele se lembrasse de olhar para mim, veria toda a cena. Ele chorando por alguma mulher linda e imbecil no meu colo. Eu o consolando e chorando por ele.
Talvez eu não fosse digna de seu amor. Talvez ele não fosse digno do meu. O que importa é que nunca ficaremos juntos. E eu era só mais uma boba apaixonada.



Nota boba da autora: São 02h34 da madrugada. A junção não dormir + tristeza está me trazendo resultados satisfatórios na escrita. E peço, por favor, que deixem algum comentário. Morro de curiosidade em saber quem lê, e as respectivas opiniões. Sugestões de tema também me alegrariam muito. Enfim. Eu disse que era boba.

sexta-feira, 28 de dezembro de 2012

Desejos

Sou uma mulher que quer sempre mais. O melhor, o mais bonito, o mais gostoso. Todo o amor do mundo. 
Sou uma mulher de paixões arrasadoras. Nunca me apaixonei e fiquei feliz. Minhas paixões são destruidoras, desesperadoras. 
Quero tudo. Quero o toque, o beijo, o tapa. Quero tudo desesperado, mostrando todo o desejo mantido num mero corpo. 
Eu quero mais, muito mais. Muito mais amor, muito mais desejo, muito mais riso. Ou, exemplificando: quero sempre alguém que eu ame desesperadamente, sentir o desejo de ter o toque da pessoa. Olho com olho, pele com pele, pé com pé. Quero achar que vou morrer se não conseguir o toque, se não conseguir saciar o desejo. E então, deitar na cama suspirando, até que por fim conversemos e rimos. 
E é exatamente isso que as pessoas precisam. A paixão, o desejo. Querer mais, sempre mais, muito mais.

Cartas

Valinhos, 28 de dezembro de 2012

Caro eu,

Sentir-se sozinha é algo horrível. Mas espere, caro eu. Tudo passa.
Eu sei que não estais bem esses tempos. Sei que está mal, que chora quando está sozinha, mas espere. A vida nunca foi, e nunca será fácil, minha flor. Mas, graças a ela, você uma hora ou outra passará momentos maravilhosos, criando lembranças incríveis para serem contadas para seus filhos e netos.
Você, minha flor, está andando no deserto nesse momento. Então aproveite essa pequena -ou longa. Como saberemos?- passagem por essas areias para pensar. Em você -em nós-, na vida, nas pessoas, no futuro. O deserto, apesar de ruim, abrirá mais ainda sua cabeça para a vida. Passando por ele, você encontrará respostas para certas coisas, como por exemplo, quem são seus amigos. O que você quer da vida. Como você continuará vivendo.
E lembre-se do melhor: após um deserto, sempre há algo maravilhoso esperando por ti. Um copo d'água. Um abraço do irmão. Um beijo cheio de desejo. Um sonho que está sendo realizado.
Você, minha flor, só tem dezesseis anos. O que quero dizer? Simples. Está apenas nos seus primeiros desertos. Mas não desanime. Fique feliz, aguardando o outro lado.

Um grande beijo.
B.P.

domingo, 23 de dezembro de 2012

Desprezava o mundo, desprezava a vida. Sentia uma tristeza infinita, um eterno cansaço por procurar sua felicidade.
Chorava. Não aguentava mais sofrer. Motivo, não tinha. A única coisa que sabia era que doía. E muito. O suficiente para querer sumir, virar um outro alguém, explodir, morrer.
Estava degradada. Não sentia nada além de tristeza. Já havia parado de tentar sentir isso. De nada adiantaria.
Solidão. Era desesperador sentir o que ela sentia. Era desesperador ver o mundo assim; Tão ruim, tão cruel.
Angústia de ser quem era. Queria ser normal, aceitar as tragédias de um jeito mais fácil.
Dor. A eterna dor. Dor que comia seu íntimo. Dor que rastejava a procura de alegria para transformá-las em mais dor.
Desespero. Não aguentaria mais um segundo daquilo.
Então, mais nada. Então, o fim.

(Tema sugerido pela minha amiga Juliana)

quarta-feira, 5 de dezembro de 2012

Era o quinto dia de Lara sem comida ou água. Os suprimentos que seu opressor entregara há dias já haviam acabado. Estava com fome e sede. Era provavelmente seu fim.
Clamava por um copo de água e um punhado de comida. Sentia a boca seca, e por mais que tentasse chorar de desespero, não conseguia.
Em todo aquele tempo mantida em cativeiro, nunca ficara tanto tempo sem ver seu opressor. Apesar de sumir por alguns dias, sempre deixara comida e água o suficiente para ela. Mas fazia tanto tempo que ela estava presa. Ele já havia envelhecido, então pode ter se esquecido. Mas será que alguém se esqueceria que sequestrou, estuporou, bateu e manteve a pessoa presa por anos e anos?
Lara, nessa greve de comida que não queria estar fazendo, cochilava e acordava a todo instante. Tentava cantar as vezes, mas a voz não saía. Se ainda tivesse o direito de usar o banheiro, coisa que perdeu em uma briga contra seu opressor, beberia água até do vaso sanitário se fosse preciso.
Deitada em sua cama, Lara pôs-se a lembrar de sua família. Seus pais, seus avós, seus amigos. Não lembrava mais do tom de voz deles, somente de algumas frases que costumam dizer em sua presença. Lembrava do "come mais, Lara. Cê tá tão magrinha" da avó, do "amigo de verdade a gente conta nos dedo, Lara" da mãe. Sua família não era formada. Sabiam ler e escrever o nome, mais nada. Exatamente por isso quiseram dar o melhor ensino possível para Lara. Imagine só o orgulho de ter uma filha que consegue escrever tudo! Enfim. Coisa que acabou depois do sequestro.
Augusto fora seu primeiro beijo, sua primeira transa, seu amante. E lembrar disso fazia com que a mulher sentisse nojo dela mesma. Seu único romance fora com seu sequestrador, seu estuprador...
Então Lara acordou mais fraca do que nunca. Não tentou levantar, não tentou juntar forças para lutar contra a morte. Simplesmente ficou deitada e esperou. Não tinha medo. Não tinha pressa. Achou até engraçado. Passara anos apanhando e sendo abusada, para então morrer de fome e sede.
Por fim, às 16 horas do dia 19 de novembro de 2028, depois de ter passado exatos 25 anos presa em um quarto sem ver o sol ou receber um abraço de sua mãe, Lara veio a falecer de desidratação.
A menina, agora mulher, que sofreu por 25 anos a solidão, o abuso e a tristeza, se foi. Quis ter um momento de descanso. Em breve sua família acharia o corpo. Em breve tentariam descobrir tudo o que havia acontecido no minúsculo quarto. Mas obviamente ninguém se importa com isso agora. O importante é que Lara teve finalmente seu descanso.

sábado, 1 de dezembro de 2012

Acordou com o barulho de bombas. Sentou-se na cama e olhou ao seu redor. O abrigo, que já não era mais seguro, estava silencioso. A pilha de corpos jogados aumentava cada dia mais. Na noite anterior, quando fora se deitar, viu que havia dois montes de corpos. Pela manhã viu que agora havia três montes. Talvez tivessem morrido de desidratação, ou talvez por tiros. Doenças infecciosas e bombas eram opções descartadas para o terceiro monte, já que os corpos estavam inteiras.
Na busca por território e mais poder, os que mais sofriam eram os inocentes, os trabalhadores que acordavam às cinco da manhã para ir até uma grande fábrica para ganharem mixarias.
E esse era o caso de Ana. Parou de estudar com treze anos para poder trabalhar. Eram tempos difíceis. Hoje, com 16, ainda trabalhava em uma fábrica que produzia alimentos "falsos". Como saladas, frutas e carnes se tornaram raros, as industrias precisaram inventar um novo tipo de alimento. A carne falsa era a mais desejada, e consequentemente, a mais cara. O falso arroz e o falso macarrão eram os mais comuns. Ninguém sabia do que realmente eram feitos. Só sabiam que eram tão nutritivos quanto um punhado de terra. Enfim. Ana trabalhava em uma dessas fábricas junto com sua mãe antes das Grandes Guerras. Hoje a menina e a mãe viviam em um abrigo, dividindo o espaço com mortos e quase mortos.
Em um dos bombardeios, sua casa fora atingida quando apenas sua mãe e irmã estavam na casa. Laura morreu na hora. A mãe perdeu as pernas quando o telhado desabou. O pai havia as abandonado logo após o nascimento de Laura. Costumava brincar que sua vida era uma tragédia, até que tudo realmente virou uma tragédia com as Grandes Guerras.
Ligou o rádio. Ouviu que havia a certeza de um novo ataque se não houvesse a desistência de algum país X envolvido na guerra. O rádio também informou que estavam pensando em uma guerra envolvendo bombas nucleares.
Desceu as escadas e viu como a cidade estava. Simplesmente não era uma cidade. Estava vendo simplesmente poeira, destroços e corpos. Sua casa se fora há muito tempo, mas provavelmente ainda estava do mesmo jeito que a cidade: um caos.
Só voltou para o abrigo quando ouviu a marcha dos soldados seguida de tiros. Se um país não conseguisse ser o melhor, ninguém seria.
Sabia que em breve seria o fim.


Obs. Tema sugerido por uma anônima. Quando descobrir o nome dela atualizo aqui rs